8.6.05

Fogo, como é que eles adivinham?



É extraordinário: mal as autoridades responsáveis decretam o início da época de fogos e a televisão publicita o anúncio, ou começa a falar no risco iminente de incêndios, os incêndios começam. Parece tudo orquestrado. Televisões e pirómanos, em perfeita sincronia, esperam pacientemente pelo Verão, uns para lançarem fogo às nossas florestas, outros para cobrirem, em mais um milagre da multiplicação dos directos, o maior dos desastres nacionais, aquele que verdadeiramente deita a perder o nosso futuro. Reparem que os fogos não começam um pouco antes ou um pouco depois de ser decretada a sua época - e, no entanto, o mato já está seco há meses e chuva nem vê-la - mas começam no dia ou nos dias do próprio anúncio. É o velho paradoxo do terrorismo enxertado nos tristes dias do naufrágio florestal: só existe se for "publicitado". E com poesia, apagam-se fogos? Não. Mas lá que podiam empregar os poetas a combatê-los, lá isso podiam.