30.6.05

Do Provincianismo

"Lisboa a Saque", texto de Eduardo Pitta no blogue "da literatura", encerra, na sua primeira parte, um acertado diagnóstico daquele que é um dos mais graves problemas estruturais de Lisboa: as flutuações demográficas que fazem com que existam vários modelos de cidade ao longo do dia. Isto a propósito da disputa eleitoral que opõe Carrilho a Carmona (entre outros). Mas é preciso saber ler nas entrelinhas, e, no último terço do texto, comete-se uma injustiça que de acidental não tem nada. A dada altura, a propósito do argumento, imputado a Inês Pedrosa, "de que Carrilho, enquanto ministro da Cultura, terá contribuído para a internacionalização da arte e da literatura portuguesas", fala-nos Eduardo Pitta de um "trio maravilha" que constitui excepção ao quase total desconhecimento, no estrangeiro, da literatura portuguesa: Pessoa, Lobo Antunes e Saramago. Enumera depois uma série de poetas e ficcionistas portugueses que "um inglês culto" não sabe quem são, e outros tantos que continuam inéditos em França ou nos Estados Unidos da América (a importância que nos damos...). Então e Eugénio de Andrade? Não conta? Sem querer aqui discutir o seu peso ou a sua importância na literatura portuguesa, pergunto se não seria mais honesto falar, em vez de um "trio maravilha", de uma quadrilha maravilha. Eugénio é "apenas" o poeta português mais traduzido depois de Pessoa, não se tratando, ainda para mais, de um autor das primeiras décadas do século XX, mas de um autor que escreveu até 2001, data do seu último livro de originais, "Os Sulcos da Sede".
Justamente, "se alguém entrar numa livraria inglesa, chinesa, italiana, argentina, checa, sul-africana, austríaca, canadense, indiana, dinamarquesa, neozelandesa, norueguesa, chilena, russa, americana, grega, marroquina, belga, australiana, irlandesa, japonesa, alemã, egípcia, sueca, cubana, holandesa, nigeriana, suíça, mexicana, turca, etc.," terá, em muitos dos casos, boas hipóteses de encontrar uma tradução da poesia do autor de "Ostinato Rigore". Eugénio está traduzido e editado nos E.U.A., no Reino Unido, no Canadá, na Alemanha, na Itália, em Espanha (com edições em castelhano, catalão e êuscara) no México, na Venezuela, na França, na Bélgica, no Luxemburgo, em Macau, na China, na Bulgária, no Japão, na Letónia, na Suécia ou em servo-croata, tendo somente em conta as traduções integrais de livros do poeta ou as antologias da sua poesia (de poemas dispersos por publicações periódicas ou antologias colectivas nem falo). Nada disto, como é óbvio, Eduardo Pitta ignora. Só o poema "O sorriso", inicialmente publicado em "O Outro Nome da Terra", de 1988, está traduzido em nada mais nada menos que nove línguas: inglês, castelhano, francês, italiano, alemão, checo, búlgaro, letão e chinês. Penso que ninguém me contestará se eu disser que Eugénio também não precisou de Manuel Maria Carrilho para nada. Ou de Eduardo Pitta. Ou, para se "internacionalizar", de quem quer que fosse.
Sabem a que se deve o "lapso" de Eduardo Pitta? É muito simples e explica-se por duas razões. Primeira: Eugénio viveu e escreveu no Porto; segunda: Eugénio era um poeta "popular", simultaneamente lido por amantes sem dinheiro e por amantes endinheirados, sem que isso o furtasse às boas graças da crítica e dos estudiosos (como aconteceu noutros casos), algo que a "cream of the crop" alfacinha não consegue engolir. Nem mesmo agora que Eugénio já não pertence ao mundo dos vivos.
Como é da praxe, a elite lisboeta ignora ostensivamente o Porto (e não há pior forma de provincianismo do que ignorar a província). Aliás, o Porto nem conta, "vocês nem existem", dizia-me há tempos uma amiga, escritora, sem ponta de malvadez ou pingo de sarcasmo. Alguém fala de Jorge Sousa Braga, por exemplo, o único poeta português que, depois de O' Neill, soube aliar o humor - no sentido cómico do termo - ao lirismo mais agudo e subtil? E quantas décadas se passaram até que Manuel António Pina fosse "descoberto" pela elite lisboeta e justamente reconhecido como um dos maiores poetas portugueses contemporâneos, o único que soube recuperar a herança pessoana e trespassar o esplendoroso vazio do quotidiano com versos de estóica e amarga ironia? Uma lástima.

48 Comments:

Anonymous Filipe Guerra said...

Pensei que a guerra Porto/Lisboa fosse coisa de pintos da costa e outros anões. Que é que o grande Eugénio de Andrade tem a ver com o Porto (a não ser viver lá), ou com Lisboa? Quem mais leu Eugénio, os lisboetas ou os portuenses? Quem mais comentou Eugénio? Os jornais e revistas de Lisboa ou do Porto? Neste caso, como sempre, os de Lisboa, o que é natural por ser mais forte culturalmente. Então o Eugénio é português ou é tripeiro? Gostaria ele desta guerra regional e estúpida?

4:40 da tarde  
Blogger Luis M. Jorge said...

Já tinha tido o desprazer de contactar com o ridídulo bairrismo portuense, geralmente na sua versão mais grunha e futebolística. Mas ainda não o tinha visto aplicado à literatura. De qualquer modo, há tanta raiva, ressabiamento e inveja no seu post, que nem sequer vou desenvolver muito este comentário. Apenas quero garantir aos seus leitores que o meu prazer em ler a Agustina ou o Eugénio de Andrade não fica maculado pelas vociferações dos atrasados mentais com eles quem partilham ou partilharam a mesma cidade.

4:44 da tarde  
Blogger Luis M. Jorge said...

Queiram substituir as últimas palavras do comentário anterior por: "...atrasados mentais que com eles partilham ou partilharam a mesma cidade". Obrigado.

4:48 da tarde  
Anonymous grim said...

Ainda sobre os poetas "maravilha", julgo que Sophia também faz parte desses happy few que são bem conhecidos em outros países ;)...

4:50 da tarde  
Anonymous hmbf said...

MR tem alguma razão no que diz. Mas há um problema... é que o provincianismo é transversal. A tribo/elite de Porto ignora a de Coimbra e a de Coimbra ignorará também a de Évora tal como a de Évora ignora a de Leiria e etc. O que mais dá vontade de rir é isto: de onde é o único Nobel da Literatura português? Eh, eh... um provinciano que, como tantos outros, foi fazer a vidinha para a cidade... Caso contrário, meus amigos, muito provavelmente ainda andaria a tentar ser editado!

4:53 da tarde  
Anonymous António said...

Bom, eu não sou do Porto, nem de Lisboa, sou aqui deste milharal que o Porto ignora ainda mais do que Lisboa ignora o Porto. Mas vou-me divertindo com esta tipicazinha irritaçãozinha miudinha do Portinho da Arrábida para com a ?elite? lisboeta. Agora é o ?meu? poeta que está traduzido em cento e vinte linguas e nem sequer é reconhecido pelo Pitta. Vejam bem, e logo o Pitta!

4:59 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Rui Lage: não me parece coerente criticar assim a não-inclusão do poeta que referes e depois dizer, mais à frente, que o Jorge de Sousa Braga é o "único poeta português que, depois de O' Neill, soube aliar o humor - no sentido cómico do termo - ao lirismo mais agudo e subtil?" - o que é que tem andado a fazer o Daniel Maia-Pinto Rodrigues?? Não há problema nenhum em ser subjectivo; o problema é, não me leves a mal, acharmos sempre que a nossa forma de o ser é a mais objectiva (leia-se natural) do mundo.
Rui Costa

5:02 da tarde  
Blogger Manuel Resende said...

hmbf:
não é mr, é rl.

DVEAVO
MR

5:08 da tarde  
Blogger O Bom Selvagem said...

Oh Rui que se f*d*m as elites pá.

Sem querer estar a dar azo a bairrismos bacocos que servem sempre de bodes expiatórios para os próprios problemas e acabam por resultar em alarvidades como a monumental casa (palácio?) da música, é verdade que se se estiver próximo de Lisboa tem-se mais exposição e oportunidades.
Isso parece-me óbvio. Não é só para os intelectuais, passa-se o mesmo com qualquer trabalhador ou recém-licenciado...

Mas não vejo o que o Eugénio de Andrade tem que ver com isso... É a primeira vez que penso nele como portuense, sempre o vi como de português para cima.

É que a dimensão dele ultrapassa claramente eventuais muralhas do Porto e, como o próprio Rui Lage disse, está em Portugal e no Mundo Inteiro o que até atira abaixo o argumento...

E olhe que não me parece que a magnífica Serralves, por exemplo, seja muito ignorada por cá.

Noutros meios então acho que o Porto (e a província do centro) domina, como por exemplo, o meio da música pop-rock.

O ambiente em que se vive é também ele influente no que se faz. O que parece uma desvantagem em oportunidades de emprego de um jovem licenciado pode ser uma coisa excelente para um poeta sonhador e contemplativo.

Nem vale a pena enumerar as vantagens do Porto, a começar pelos belos cafés e a boa comida e a acabar numa cidade negra e misteriosa, caótica e visceral, de gente muitíssimo simpática e genuína.

Os nossos 'belos cafés' cá são Milleniuns BCPs ou tourist traps... isso é que dá cabo da arte toda. O difícil é escrever poesia depois de um dia a andar no metro em hora de ponta.

Se o Eugénio parasse para contemplar a vida num qualquer passeio de Lisboa e leva logo um encontrão de um executivo apressado.

5:12 da tarde  
Anonymous António said...

pronto, pronto, o porto também tem coisas boas, pronto, já passou, já passou...

5:18 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Sabe porque é que vocé é realmente um provínciano, Rui Lage? Porque ainda fala de Lisboa, em vez de falar de Sidney, Nova Iorque, Tóquio, Amsterdão ou Berlim. E essa estreiteza de vistas, meu caro, é já um excelente motivo para a nossa indiferença. O Porto realmente não existe.

5:31 da tarde  
Blogger Nancy Brown said...

É tão escandalosamente ridícula esta disputa q nem a deveria comentar, mas... Eugénio de Andrade não precisou dos intelectuais de nenhum ponto do país, não foi por acaso q continuou a exercer a sua profissão a leste das "questíunculas" obsoletas dos intelectuais da nossa praça, sejam eles do Norte, do Sul ou do Centro. A grande literatura não precisa de Pittas nem de Carrilhos nem de Lages, ela sobrevive para além de tudo isto... Não compreendo este tipo de mentalidade e cada vez me causa mais irritação...

5:41 da tarde  
Blogger Rui Manuel Amaral said...

Creio que não há mal nenhum em dizer que o Eugénio é um escritor com fortes ligações ao Porto. Não faltam na sua obra referências ao Porto.

5:49 da tarde  
Blogger Rui Manuel Amaral said...

Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

5:56 da tarde  
Blogger Rui Manuel Amaral said...

A malta do Porto sente estas coisas de uma maneira que os de Lisboa nunca compreenderão. Ou preferem não compreender. Pronto.

5:57 da tarde  
Anonymous F. Guerra said...

Rui Amaral, isso que diz é uma coisa muito justa, mas o que vem no post de R. L. não é isso. Garanto-lhe também que na poesia de Eugénio há muitas referências a Lisboa, e também à Grécia, por exemplo.

5:57 da tarde  
Blogger Rui Lage said...

Meus Deus, há muito que não via tanta bílis derramada. Os senhores que me insultam nem sequer reparam que se limitaram a comentar o último parágrafo do meu texto. Quanto ao resto, népia. E o resto, senhores, não se trata de nenhuma questiúncula ou disputa, mas de corrigir uma injustiça (uma omissão, se quiserem), e de repor a verdade dos factos - ou de lembrá-los a quem propositadamente os esqueceu. Quanto ao tratamento que o Porto merece por parte de Lisboa, só não vê quem não quer. Fiquem os senhores com a vossa opinião que eu fico com a minha. De resto, eu não digo em lado algum que o Eugénio é um poeta do Porto - o que seria, aliás, contradizer tudo o que acabara de escrever. Apenas escrevi que ele "viveu e escreveu no Porto". É alguma mentira? Os senhores comentadores deviam era aprender a ler antes de comentar. Metam explicações.

6:12 da tarde  
Blogger Rui Lage said...

Rui Costa,
eu assumo as minhas escolhas, que são, como todas as escolhas, subjectivas. Tão subjectivas como a sua escolha do Daniel-Maia. Gosto bastante de alguns dos seus livros, mas prefiro o Jorge Sousa Braga, de longe, que até já anda por cá há mais tempo (a cantar desde 1981). Está a interpretar-me mal: não acho nada que a minha "forma de ser é a mais objectiva". Aliás, não lhe dou importância nenhuma (à minha forma de ser, entenda-se). E também não me levo muito a sério, sabe? O que eu vejo é que anda por aí muito comentador neurótico com o dedo encostado ao gatilho; duvido que leiam os textos com atenção, mas, ao mínimo sinal de movimento, disparam, às cegas. Se empunhassem pistolas em vez de ratos de computador, era uma mortandade que não vos digo nada.

6:31 da tarde  
Anonymous hmbf said...

MR
perdão
RL
perdão
mais um acto falhado
:)

6:41 da tarde  
Anonymous F. Guerra said...

Não, Rui Lage, entre as coisas justas que diz e que ninguém aqui contestou, o que ressalta no seu post, sem ser preciso ir ao explicador, é que a Lisboa cultural ostracizou Eugénio de Andrade e nunca o aceitou como grande poeta por ele estar ligado ao porto («algo que a "cream of the crop" alfacinha não consegue engolir.») Esta sua última frase não corresponde a qualquer verdade, é ridícula e está talvez na base de todas as críticas que aqui lhe são feitas. Isto compreendemos nós muito bem, sem explicador. Ressalvo que conheço muita gente do Porto, principalmente na área cultural, para quem não existe Porto nem Lisboa, apenas cultura nacional, com as suas grandezas, com os seus podres e com os seus problemas. Não vamos agora transplantar as hostilidades futeboleiras para a «poesia de todos os homens» (Mandelstam).

6:47 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Rui Lage: disse temos (plural mais ou menos inclusivo) a tendência para acharmos que a forma como somos subjectivos é a mais porreiraça para o mundo. a verdade é que o teu post não deixou uma aberta para a possiblidade de a escolha do crítico ter sido feita com base numa questão sobretudo de gosto (e digo sobretudo porque não somos imunes a discursos) e explicou-a (essa tal escolha) com base numa atitude discriminatória (regionalista; ?erudita?) maldosa desse crítico. Foi, ao mesmo tempo, um post ?generalizador? (primeira razão: ?Eugénio viveu no Porto?; em vez de, por exemplo, ?o crítico X não gosta de pessoas do Porto e por isso??). Mas é verdade que os comentários de sete pedras abundam, excessiva virtualização do encontro no meio da malta humana que a põe carente e falha de jeito na contenda-conversa.
Rui Costa

7:17 da tarde  
Anonymous Margarida Vale de Gato said...

Ó Rui, eu não sei se são as sete pedras ou as teorias da conspiração que passam sem explicações. Não compreendo o que o leva a afirmar, e a reiterar, que a omissão de E. A. foi propositada, sem depois apresentar nenhuma justificação. Lembro-me de um post do E. Pitta, comentado pelo Manuel Resende, em que o primeiro, a propósito de poetas franceses, se esquecia do Mallarmé. É normal, ele depois penitenciou-se. Desculpem: não consigo ver maldade nisso. E incomoda-me que lancem assim as coisas, fico sempre com a impressão de que o mundo afinal é muito mais perverso e eu sou a única a não me dar conta. Mas não será também a nossa mania de o tornar perverso?
Quanto ao bairrismo. Eu gosto muito do Quartzo e gosto muito do Porto. Agora, quando me falam no desenraizamento, e encontrões apressados, e no monstro capitalisto-progessista que só na metrópole grassa, a mim apetece-me contrapor com a bela Graça (tem óptimas pastelarias, também) ou até com o meu bairrozito dos Anjos, tão pobrezinho mas honrado.
Portanto: eu não sou uma lisboeta desenraizada, e mais considero que o meu bairro e os limítrofes desenvolvem um genuíno espírito de comunidade. Além disso, prefiro acreditar que as pessoas, mesmo com responsabilidades na matéria (seja lá o que isso for) são humanas e também se podem esquecer.
Será ingenuidade saloia a minha?

7:50 da tarde  
Anonymous Margarida Vale de Gato said...

Isto sem desprimor para as minhas origens alentejanas que, por acaso, Rui, também são rurais.
Acho só que devíamos todos parar para desconfiar um bocadinho menos uns dos outros.

8:23 da tarde  
Blogger Manuel Resende said...

MVG,

Salve, irmã! Não sei se isso da Lisboa cosmopolita é para mim. Quando disse que Lisboa é cosmopolita, aqui há tempos, era para sublinhar o carácter provinciano e tacanho do Porto. Precisamente.

Sou do Porto, creio que já se percebeu, gosto da minha terra, tenho perfeita consciência dos seus limites (Gaia, Gondomar, Matosinhos, etc.) sempre detestei bairrismos, e nessa altura explicava a alguém como talvez fosse possível sobreviver no Porto uma tradição rural como é o São João. PRECISAMENTE PORQUE O PORTO É PROVINCIANO, como muito bem diz Arnaldo Saraiva, por exemplo.

Conheço perfeitamente a Graça, onde vive um meu amigo muito querido. E ainda no outro dia, quase ia chorando ao acolher-me a um restaurante-tasca da Graça onde tive o prazer de comer, qual comer, saborear uma sopa de legumes que não hesitaria em qualificar de rural. E estive quase para escrever um poema que diria:

"Um dia, dentro do espaço e do tempo,
serviram-me o amor sob a forma
de sopa de legumes,
e estava quente."

Não o escrevi só por vergonha.

Agora, depois disto tudo, apesar da forma um pouco abrupta como o RL escreveu, que sinto e continuarei a sentir até morrer a discriminação e o falso sentido de superioridade da gente de Lisboa, sinto. Sinto. Que quer que lhe diga? Sinto.

Acho que o RL foi injusto numa coisa. Eduardo Pitta tem-se farto de escrever sobre o Eugénio. Claro que não há nele qualquer preconceito contra o Eugénio. Além disso, o Eduardo Pitta é meio preto, é de Moçambique. Mas, talvez por tudo isso, e aqui é que a porca torce o rabo, seja mais flagrante o seu dele lapsus.

Não posso esquecer as mil e uma pequenas humilhações quotidianas que o ser do Porto me trouxeram nas relações com gente da capital, inclusive amigas (como, por exemplo, corrigirem-me os regionalismos, dizendo: "Não se diz assim" para logo acrescentarem que gostavam muito da malta do Porto, gente muito franca, muito directa, etc.).

Vocês não se apercebem disso, e ficam chocados com as reacções exorbitantes das pessoas do Porto, assim como certos brancos acham que os pretos é que são racistas e certos homens acham que são perseguidos pelas feministas e certos pais não percebem porque é que os filhos afinal foram fazer aquilo.

Mas nós, não é verdade, filósofos, pairamos nas montanhas, rindo alegremente dessas pequeninas ridicularias humanas, pairamos sobre tudo isso, com elevação de alma.

9:58 da tarde  
Blogger Manuel Resende said...

Filipe Guerra:

Está a ver?

Eu,por exemplo, não sei o que seja uma cultura nacional.

E se houver, vomito-a da boca para fora.

Haverá quando muito, poetas surrealistas portugueses, pintores abstractos portugueses, etc.

Não esperava essa dum tradutor...

Não queiramos agora cobrir do manto nacional as nossas pequenas questiúnculas.´

Género:
«Eh,pá! Carais! Não vêm que somos todos portugueses? Pra qué que estamos praqui a chatear-nos? Vamos lutar por uma Nação Grande, Forte, Dignificada!»

Não, não somos todos portugueses. Eu,por exemplo, sou estrangeiro.

10:06 da tarde  
Blogger Manuel Resende said...

E você também é galego...

10:08 da tarde  
Blogger Eduardo Pitta said...

Eu não me esqueci do Eugénio! Simplesmente não o quis citar num contexto de «inventário» de autores cujos livros a gente não encontra lá fora (isso sim, poderia parecer «alfinetada»). Aliás, o «inventário» podia, e talvez devesse, ser a dobrar, só não tendo sido por razões de economia discursiva. Tão simples como isso.

10:16 da tarde  
Blogger Eduardo Pitta said...

Passe a publicidade: respondo a Rui Lage em «O Mundo Visto do Passeio Alegre».

10:21 da tarde  
Anonymous Margarida Vale de Gato said...

Pois, desta vez, e pelo que me pareceu nesse último post do "da literatura", acho que foi o Eduardo que tresleu o Rui Lage. Segundo entendo, o que o Rui queria era que o Eugénio viesse junto ao "trio maravilha" (daí passar a "quadrilha") e não no rol dos injustamente desconhecidos. Penso eu.
Manuel: sim, admito isso. Mas eu só quis dizer que aqui também há comunidades (e bairrismo, no pior e melhor sentido, que a palavra é tão movediça como a outra do "corporativismo"). Nos meus bairros, aliás, durante estes santos, não vi patamar de escada ao ar livre onde não se reunissem logo espontaneamente uns vizinhos mais uns fogareiros de roda de sagres e sardinhas.
Mas se calhar os laços estreitavam-se se nos visitássemos mais, não? (fum fum, esta também é para ti, ó Amaral).

10:52 da tarde  
Blogger Manuel Resende said...

Rui:

É verdade que ninguém falou do Manuel António Pina durante décadas, salvo uma ou duas honrosas excepções.

É verdade que, mal foi publicado na Assírio e Alvim, pumba, desatou toda a gente a falar dele - e até por isso o Sampaio lhe deu comenda.

É capaz de haver aí um esquecimento, por ele ter publicado em editoras provincianas durante décadas.

Mas também há outra coisa, que não podes esquecer: durante décadas, sendo ele jornalista e tendo acesso, se quisesse, às redes de relações mediáticas, nunca se aproveitou disso para se promover.

Foi fiando os seus textos, apenas. Portanto, cabe-lhe uma parte da glória de ter sido esquecido. Não é apenas uma questão regionalista.

E isto tem a ver com outra tradição inaugurada em Portugal pelos surrealistas, e por uma ou outra individualidade como o Herberto Hélder e o Ramos Rosa, sobretudo o Herberto Hélder. E que consistia em se absterem de promoções.

Por isso é que esses poetas nos são caros ao coração.

Não menosprezes o Manuel António Pina ao reduzi-lo a um simples caso regional (que também foi, não há que o negar).

10:57 da tarde  
Blogger Manuel Resende said...

Margarida,

Desculpe, lá, não me faça chorar.

Um beijo para si, para as sagres e para as sardinhas dos seus vizinhos.

Sei muito bem que Lisboa tem muitas aldeias lá dentro, tem uma cultura popular que nasceu nos seus bairros.

Por isso aquilo da sopa de legumes.

Mas sei também que Lisboa foi o centro administrativo e do capital financeiro e colonial, que desarrincou populações ao seu habitat e lhes entregou espaços inóspitos (Telheiras, Cova da Moura, etc.), onde passar é ser agredido por torres e auto-estradas disfarçadas.

Quando passeio em Bruxelas, onde há disso, mas mais controlado (um amigo meu ao visitar-me disse-me isto: "porra em portugal este espaço era considerado um desperdício", ao ver espaço, precisamente e árvores, no meio da cidade), não posso deixar de comparar com Lisboa inóspita e penso, sinceramente, que não é difícil de perceber como poderão nascer guetos lá.

Hannah Arendt disse uma vez, na segunda guerra mundial, que Portugal (quer dizer, Lisboa) era americano, só o povo e a aristocracia, não. Muito certo.

Praça das Nações, arg.

11:10 da tarde  
Blogger Manuel Resende said...

Aquele o como se diz eduardo prado coelho, salvo erro, falava de paris e das suas ruas vivas.

E, custa-me a dizer, é verdade. Paris é, em certos aspectos, horrível. Casas caríssimas, o proletariado e os diversos árabes e pretos expulsos para a periferia onde fazem as suas tropelias em banlieues onde não há cafés, nem lojas, «cités dortoirs», mas apesar de tudo continua a haver uma vida em Paris, nas suas ruas, muito mais do que no Porto ou Lisboa.

O mesmo para Bruxelas (Amesterdão nem se fala): todos os domingos ou sábados, e mesmo feriados, há feiras e feirinhas por todo o lado.

Não quer dizer que seja o paraíso, longe disso, mas ainda há uma luzinha ali.

11:20 da tarde  
Anonymous F. Guerra said...

Manuel Resende, não sou do porto nem sou de lisboa, daí a minha tendência não sexual para, peço desculpa, cagar nestas questiúnculas inter-cidades. Como vivo em lisboa e acho que a cidade está muito agressiva e feia, falo muito mal de lisboa, mas não em oposição ao porto, que mal conheço. Quanto à cultura, nacional ou não, não esperava de um pensador culto como o MR que alinhasse nestas paroladas (de um tradutor sim, já se espera tudo). Cada vez mais quero ser galego, mas de Ourense, não quero nada com esses merdas da beira-mar de Vigo e A Corunha. (Anedota ouvida em Porrinho: - O Fraga xá se f..., pra onde c... o imos a degredar? Pró (Porto, Braga, Lisboa... à escolha)
Já agora, falar de lisboa ou falar de porto é o quê? Lisboas conheço umas vinte, algumas delas mais diferentes da vizinha do que do porto.

11:36 da tarde  
Anonymous alexandre andrade said...

Caro Manuel:

Convido-o a visitar Telheiras, onde tenho o prazer de residir, da próxima vez que vier a Lx. Verá que de inóspito pouco tem. Faço questão de lhe servir de cicerone. Não sei se existe um bairrismo telheirense, mas há jacarandás e gatos errantes, à falta de poetas geniais (traduzidos ou não em línguas bárbaras).

12:24 da manhã  
Blogger Manuel Resende said...

O quê, Alexandre Andrade?

Jacarandás? Vamos a isso. Eu só sei que a gente vai pela Cril ou Crel ou sei lá o quê,Segunda Circular, é isso? e sai pelo Carrefour e depois segue em frente até uma rotunda e dá a volta e entra num bairro que é tudo nomes de professores e betoneiras e deserto.

Se me conseguir mostrar coisa melhor, agradecido. Agora, como vamos fazer? Mando-lhe o telemóvel, mas para onde?

12:40 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

O Rui Lage queixa-se que "a elite lisboeta ignora ostensivamente o Porto". Eu só queria dizer ao Rui que a palavra "ostensivamente" é desmesurada. Nós, aqui em Lisboa, ignoramos o Porto sem qualquer ostentação. A verdade é que nem nos lembramos que o Porto existe. Se um tipo vai a andar e passa ao lado de um cão sem lhe fazer uma festa, isso quer dizer que foi ostensivo? Creio que não. Do mesmo modo, não queremos saber dos vossos poetastros, nem das vossas amenidades, nem dos imbecis que por aí destilam o fel contra a capital. Nós queremos é que vocês tratem da vossa vidinha e não nos chateiem.

1:04 da manhã  
Blogger Manuel Resende said...

Este é mesmo palerma, palavra de honra e justifica todos os excessos do bairrismo.

Estais a ver, amigos meus? De que vale elegâncias perante tais bestas?

2:00 da manhã  
Blogger Manuel Resende said...

O Rui,francamente, pensando bem. Até já pus (e retirei) um post estúpido sobre isto.

Olha que acho que extravasaste. O EP não estava a fazer um post sobre literatura, nem a fazer um elenco para uma antologia universal de expressão portuguesa ou coisa que o valha, estava a falar de Lisboa e das eleições para a câmara...

8:49 da manhã  
Blogger alquimia submersa said...

Lamentável, caro Rui Lage. É por estas e por outras que sendo nós um país pequenino na dimensão, somos ainda mais pequeninos na mentalidade. Que tem o cu a ver com as calças, pergunto-lhe, desculpando-me pela rudeza da linguagem? Sou de Lisboa, a minha família é do Norte e delicio-me com a paisagem, as gentes, a gastronomia e tudo o mais do Norte do País. Ah, e gosto de Eugénio de Andrade. Vê alguma incompatibilidade nisto? Abraços, Paulo Ferreira (paulo.ferreira@oniduo.pt)

11:31 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Manuel Resende: a que elegâncias se refere? E que justificação pretende encontrar nelas para o seu bairrismo completamente bacoco?

Meus amigos, arranjem uma vida. Saiam dessa caverna das berças e viagem. Desempoeirem. O mundo não gira à vossa volta, e por muito que batam com a cabeça nas paredes ou que se chateiem com uns lisboetas, nunca vai girar. Deixem de ser ridículos e curem de uma vez por todas essa inveja patética que, aqui em Lisboa, não arrelia nem comove ninguém.

1:45 da tarde  
Anonymous Pedro Coelho said...

Bem, ó escalabitano Resende, o que me trama mesmo é que tenhas perdido a virgindade em Bruxelas.
Abraço

10:22 da tarde  
Blogger Manuel Resende said...

Ouça lá seu filho da puta de anónimo do caralho:

tomara você, seu palerma, conhecer metade das cidades que eu conheço com as palmas da mão. Se me pagar bem, mostro-lhe.

Vá lamber a quinta pata do cavalo, tá bem?

1:21 da manhã  
Blogger Manuel Resende said...

Caro Pedro Coelho:

Daqui a um bocado eu telefono.

Obrigado.

1:32 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Oh, Manuel Resende... A menina está zangada?

12:00 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Esse é que é o famoso português "vernáculo"?

2:01 da tarde  
Anonymous Robert Diable said...

Fodam estes sacanas todos. Menos o Eugénio que já anda de harpa na mão.

9:28 da tarde  
Anonymous O Esqueleto Iluminado said...

Eh, eh, eh, esta ainda consegue bater a minha questiúncula em n.º de palavas. Até MVG puxou dos pergaminhos para bater em RL. Deixe-lá isso, não se sinta infeliz, faça como eu, o do século iluminado, considero-me da parte mais bonita do Porto e sou do Benfica. Vá, grite comigo

VIVA O UNIVERSALISMO!

1:29 da manhã  
Anonymous Beirão said...

Mas que porra é esta?
Eu só pergunto: que porra é esta???
(Ninguém percebeu e eu muito menos. Só fiz a pergunta porque nisto de Porto-Lisboa há sempre uma porra qualquer...). Mas seja como for, pergunto de novo: que porra vem a ser esta?
E o Porto fica onde?
E Lisboa, já agora?

3:37 da tarde  

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