7.6.05

Contos e lendas da gente cá do meu bairro (1)



SE NÃO FOSTE TU FOI O TEU FILHO...

Às vezes dizem-me em tom benévolo: "Mas tu andavas mesmo desanimado...Apoquentado, assim meio esdrúxulo. Que isto está uma choldra! Mas que se passou?". E eu, enrolando um pouco as frases e sem me desvelar muito, lá vou balbuciando: "Olha, invejas! Os pratinhos nacionais: espera que já te lixo e por aí. Gente que tem no lugar do coração um esfregão sujo, um cardo, uma esponja seca...Percebes?".
Mas - veja-se o poder da poesia... - tudo começou por uns versos. E nem sequer meus. O poema, hoje já antologiado e oferecido pelo autor ao seu amigo Orlando Neves, no entender de alguns fora inspirado por mim... E como não podiam chegar a quem o fizera, começaram a enrolar-me em onzenices, em artes enfeitiçadas nestas terras onde os caciques têm mais penas que o Jerónimo!
Verdade seja que eu uso facilitar a tarefa: falo demais, olho a direito, não como a papinha toda...
Mas a versalhada é que os deixou de pantanas. Acertava em cheio nestas personagens encantadoras que aqui se arrolam. O que para certos fabianos é um puro desconsolo histórico...

INVENTÁRIO PORTALEGRENSE

Um senhor muito sério que lixou uma Empresa
certas madames que dizem sempre sim!
Alguns políticos que só jogam à defesa,
jovens drogados prós lados do Bonfim.

O Ensino que aqui é bestial,
o Comércio que comercia muito bem.
A Cultura que é fenomenal
- entre os vivos e os que o Senhor lá tem.

Um quotidiano que só nos dá prazer,
um futuro esperançoso a toda a hora.
Pena é que a malta jovem, ao crescer
p'ra ter emprego tenha que ir embora.

Um Alentejo calmo e sossegado
conforme diz o Chefe da Polícia
agente competente e informado
que isto revela sem qualquer malícia.

"Mas, caros eleitores, o que se há-de fazer
se isto é assim aqui e em qualquer banda?"
pergunta um político com a voz a tremer.
- Deus guarde Portalegre e quem lá anda!

João Garção in "Líricas e Satíricas", 2000


PS - Como não consigo entrar nos comments - malhas que o império tece... - agradeço por este meio a Margarida Vale de Gato e a uma menina Leonor as palavras de estima que dias atrás, conforme me foi dito, ambas me dirigiram.