12.6.05

Andar pelos mesmos sítios...

Ao ler uma antologia de Poesia Espanhola de Agora, traduzida por Joaquim Manuel Magalhães, e editada pela Relógio d'Água, deparo com um poema de Luis García Montero (Granada, 1958) que vive de uma ideia muito semelhante à de um outro que publiquei, no mesmo ano, no meu livro Este Lado Para Cima.

Falo disto apenas para partilhar (a quem verdadeiramente se interesse), que do ponto de vista criativo é muito curioso deparar com este "andar pelos mesmos caminhos". Já não é a primeira vez que isto me acontece, em sentido inverso, e não faltará quem explique estes fenómenos pela emergência da contemporaneidade.

Nem de propósito, a este mesmo poeta são atribuidos por Fernando Pinto do Amaral no seu texto "A porta escura da poesia" (Relâmpago, nº12), os seguintes versos "Realmente es muy parecida la forma / que todos tenemos de sentirnos originales".

Eis os dois poemas:


põe um disco a correr. a chuva não demora
mais que o esvaziar das nuvens se te
confessasse as coisas que já atirei ao mar

o revólver do crime palavras numa garrafa
não darei nome ao poema seria como quem
coloca legendas aos dias e eu: sou como
água (tomando forma nos lugares que molha)

vou repetir (para quem só agora ligou este
poema:) no cesto de frutos da mãe as estações
do ano sucedem-se e o disco era um disco

tão antigo tão antigo que a certa alturantigo
tão antigo que a certa alturantigo tão antigo
que a certa alturantigo tão antigo que a certa
alturantigo tão antigo qu


e

BALADA OU EPIGRAMA

Tu que foste mais ou menos Disc-Jockey
pelo sonho da tua geração,
por certo hás-de saber que a vida
é um disco com duas revoluções
que dura sempre, amor, nunca se risca,
nunca se risca, amor, nunca se risca,
nunca se risca, amor,
nunca se risca.

de "Además", 1994
Luis García Montero,
tradução de J.M.Magalhães