21.6.05

ALEGRIA NO TRABALHO (7)



O Homem que juntou o Rock ao lirismo de cepa lusitana

Cheguei ao parque bem tratado que rodeia o moderno edifício de Santa Maria de Penaguial numa linda manhã de Maio em que o sol brilhava com toda a sua glória. E contudo...
Sentia-se no ar uma certa...amargura, uma certa...tristeza. Como Pöe afirmou num conto - traduzido por Guilhermina Valdechat num português impecável - "Há lugares onde paira a memória de dramas para além do entendimento". Com efeito, pensei, é neste parque sob os caramanchões e nos logradouros onde enfermos acompanhados de zelosas enfermeiras vão gozar as sombras da tardinha, que eles descansam da loucura de um mundo que os não soube estimar...
Na visita prévia eu soubera pelo administrador que era ali que estavam alojadas personalidades como a bailarina Marina Frota, o antigo empresário J. Isidro, o actor André Soviete, o pintor Leão Sarmento... Enfim, alguns dos que num passado não muito distante ocupavam as páginas das revistas prestigiadas e por vezes eram objecto de análise do pensador Edmundo P. Coelho (neste momento também internado numa clínica para catatónicos em Salcede-do-Vouga).
Enquanto me aproximava do edifício central um filme passou-me pela mente: Dionísio cantando na Praça de Touros do Cacém, entre milhares de espectadores em delírio, o seu "Tardes da Foz", Dionísio fazendo par com Marília Sanlúcar, a actriz andaluza no filme (co-produzido por Pedro Branco)"Cerca del Guadalquivir" galardoado com o Veado de Prata para a melhor canção original, Dionísio junto do presidente do município tripeiro e, após a sua vinda de Hollywood para participar como vedeta na campanha das outras legislativas, o lançamento do seu livro "Eu e a música" com prefácio de Fernando Manuel Viegas.
E, antes de entrar pela larga porta da modelar clínica orientada por esse expert da psiquiatria subliminar que é o Dr. Jorge Deusdado Vaz - cruzou-me a memória o súbito declínio: as acusações a Roberto Fininho de lhe ter plagiado um tema...o subsequente recebimento, por parte deste, do disco de platina...o processo retumbante movido por Dionísio e que encheu noticiários televisivos...a tentativa de estrangulamento do rival ao ver-se perante o injusto acórdão do colectivo de juízes (peritos em abandalhar o já de si abandalhado sistema)...a entrada no sanatório onde agora se encontrava...
Aprumando-me, contudo, dirigi-me de mão estendida para a figura que já me aguardava à porta da sala de visitas entre dois espadaúdos enfermeiros, tentando um sorriso acalentador!

(Biografia sucinta: Dionísio Luís Travassos Valdês nasceu em Oliveira de Azeméis. Seu pai era farmacêutico e sua mãe especialista em agricultura biológica pela Faculdade de Ciências de Santarém.
Depois de voltar da tropa teve a sorte de ser avaliado por um caçador de talentos que lhe propiciou uma carreira meteórica. Foi, com António P. Ribeiro, o grande renovador do rock lírico em Portugal. Obras mais conhecidas: "Romaria em Vilapouca", "Trip nortenho", "Noites da Boavista", "Luar do Douro" e a opereta "Meu Palácio de Cristal").
O poema escolhido é "Obsessão", de Francisco Bugalho:

Dentro de mim canta, intenso,
Um cantar que não é meu:
Cantar que ficou suspenso,
Cantar que já se perdeu,

Onde teria eu ouvido
Esta voz cantar assim?
Já lhe perdi o sentido:
Cantar que passa perdido,
Que não é meu estando em mim.

Depois, sonâmbulo, sonho:
Um sonho lento, tristonho,
De nuvens a esfiapar...
E novamente no sonho
Passa de novo o cantar...

Sobre um lago onde, em sossego,
As águas olham o céu,
Roça a asa dum morcego...
E ao longe o cantar morreu.

Onde teria eu ouvido
Esta voz cantar assim?
Já lhe perdi o sentido...
E este cenário partido
Volta a voltar, repetido
E o cantar recanta em mim!

4 Comments:

Blogger Rui Manuel Amaral said...

Assisti a alguns espectáculos do Dionísio. Absolutamente inesquecível foi o concerto no coreto de S. Lázaro, que mais tarde daria origem ao clássico "Dionísio Live at S. Lázaro" (disponível também em DVD). Só tenho pena de não ter comprado um disco pirata que em tempos vi na Vandoma, e que era o registo de uma pequena sessão do Dionísio no Café Piolho, integralmente preenchida com anedotas de cariz pornográfico ditas pelo próprio, e com acompanhamento musical assegurado por um quarteto de cordas que interpretava peças de Schubert.

2:41 da tarde  
Anonymous ns said...

Estavam no melhor ambiente...Schubert, esse génio e se dizem alguma coisa contra desta vez levam no nariz, nisto não brinco, atenção! - Schubert era um maravilhoso copofónico, um estupendo companheirão.
Não resisto mesmo a fazer publicidade de um texto que eu mesmo escrevi! Importa-me cá que me casquem, queimado já eu estou: leiam no Arquivo de Renato Suttana, basta digitar e depois clicar, seus preguiçosos, o que lá está sobre ele, incluindo a última coisa que ele escreveu.
Vá, toca a ir lá, é por uma boa causa: Schubert. Só por ter ouvido a sua música já valeu a pena ter vivido!

4:09 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

schubert não passava dum miserável burguês. não tinha nenhuma consciência de classe. e você também não.

3:04 da tarde  
Anonymous Zé Povão said...

Este último comentário faz-me lembrar aquele tolo que, de vez em quando, enviava para o Quartzo comentários grotescos e grosseiros. Não me lembro já do nome dele. Às tantas, já o libertaram - ou deixaram-lhe ter computador na cela...

3:08 da tarde  

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