20.6.05

ALEGRIA NO TRABALHO (6)



UM ELO IMPORTANTE NA LITERATURA PÁTRIA

"...E foi então que através da minha modesta empresa ajudei a resolver o problema literário em Portugal!" - disse-nos Remígio Guerra no decorrer da conversa que com ele mantivémos na pequena vivenda perto da Quinta do Bispo, local de vilegiatura quando não está a gerir os seus negócios.
"O caso é bem simples! - acrescentou clareando a situação - "Devido à contínua desflorestação (leia-se M.Resende) as editoras nacionais estavam a entrar em crise por carência de papel. E foi então que eu e os meus doze colaboradores, pois criei 12 postos de trabalho que hoje dão o pão a cerca de trinta famílias, contribuímos decisivamente para resolver o assunto: relancei o cartão prensado como matéria-prima da substância literária!" - referiu com orgulho indisfarçável. E, enchendo de novo os copos com um excelente "Borba" branco gelado, aduziu: "Muitos dos melhores livros que por aí circulam, desde as peças de teatro experimentais do Prof. Diogo aos ensaios históricos do Chico Silva Tavares, passando pelas singulares novelas de Valter da Silveira, existem porque há papel em termos!". E concretizando:"O surto de desenvolvimento literário, que incide nos mais diversos sectores e permite um novo interesse da malta mais atenta (só assim se compreende que até um blog de reflexão filosófico-literária atinja a soma abracadabrante de cem entradas nas caixas de comentários) em parte é devido às novas condições ambientais no que às belas-letras diz respeito, estimuladas pela acção da empresa que erigi!".
Remígio Augusto da Fonseca Guerra nasceu em Sesimbra, sendo o único filho do guarda-fiscal Gualdino Guerra e de sua esposa D.Violante Maria da Paz, por alcunha a "Bem Formosa". A praia ficou sempre sendo um dos seus grandes gostos.
Na escola, que frequentou com um entusiasmo relativo, os seus dois apelidos concomitantes contribuíram para estabelecer frequentes escaramuças com os colegas mais informados e com um mais desenvolto sentido de humor. Devido a tal facto e segundo nos confidenciou no decorrer da entrevista, "Nunca pude com aquele Tolstoi!".
Curiosamente, veja-se o que são as coincidências da vida (e aqui revelamos um facto desconhecido dos nossos leitores): um dos seus primos preferidos viria mais tarde a ser um excelente tradutor de russo!

O poema seleccionado por este cidadão de sucesso é o "Para um novo livro de Cesário Verde", de Raul de Carvalho:

Eles tomam cerveja, ambrosia, licores
oleosos, sagrados como discos lunares.
Do azul da gravata ou da fímbria das ondas
retiram pensamentos ociosos e puros.

Recolhem-se de noite às oliveiras mansas
duma infância passada em louco desafio.
Ou então, nos portais, em amoroso convívio,
fingem que já não temem a noite nem o frio.

Já não têm família e mastigam, sozinhos,
um jovial jantar, colorido e minúsculo,
que haviam de comer, num domingo qualquer,
entre amigos cantando, entre mulheres amando.

Têm as caudas leves e subtis dum peixe,
têm um planeta adormecido e exangue,
têm os olhos líquidos, de asfódelo ou de cobre,
esses seres mitológicos que asfixiam a Terra.

São eles que caminham, irreais e aos tombos,
pondo nódoas de espanto por cima dos telhados.
Eles é que me deram o título deste poema:
A Cidade Está Cheia de Homens Assassinados.

4 Comments:

Blogger Rui Manuel Amaral said...

Excelente, Nicolau. Mas é mesmo uma grande ideia. Vou ver se há alguma linha de incentivos para este tipo de negócio.

3:43 da tarde  
Anonymous animae said...

Leio este post com piada e fico a pensar.
No da literatura que é um blog competente mas cinzentão apareciam cem comentários... Aqui neste que também é competente e cheio de humor aparecem um, dois... No barnabé que já é cinzentão de tanta foleirice aparecem duzentos...
Não digo nada mas que isto dá que pensar...lá isso...

3:52 da tarde  
Anonymous Margarida Vale de Gato said...

Afinal letê a co mandê un drol de bal. Gros bisoux.

11:03 da tarde  
Anonymous F. Guerra said...

Remígio Guerra nas teclas de NS por direito próprio, como se vê, e não porque eu meti aquela cunha: fique o esclarecimento. O que nenhum estudioso e exegeta da obra do meu primo jamais viu: o seu poliglotismo tinha uma falha: o inglês. Dizia ele que esta língua lhe fazia «trupla i mai mai» («trouble in my mind»?). Obrigado Nicolau, depois lá mando a jeropiga.

11:57 da tarde  

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