16.6.05

ALEGRIA NO TRABALHO (4)



A MULHER QUE DEU LIÇÕES A MARCELO

Arminda de Jesus Mendes Raposo, a "Armindinha do arroz malandro" como é conhecida na sua área tanto pela sua jovial presença como pelas qualidades que comunica às iguarias que prepara, nasceu no Seixal, descendendo ainda, pela parte materna, dos Mendes que no nosso tempo dariam à pátria tanta gente ilustre, já no ramo da política já no ramo de outras actividades respeitáveis.
O seu pai, mecânico de automóveis e actor amador numa colectividade da terra, incutiu-lhe o amor pela função cénica, tendo de sua mãe D.Maria José (a célebre "Zézinha do vira-agora" das matinés dançantes herdado o feitio esfuziante, a simpatia natural e o dedo para os pitéus.
Colocada, em devido tempo e por concurso, como cozinheira na Escola C+S Leandro de Oliveira, Arminda era a breve trecho "a senhora da casa" como refere numa das suas expressões inolvidáveis a nossa poetisa Berenice de Medeiros, por juntar a competência à cordialidade.
Anos atrás e numa acção de campanha, o futuro presidente de todos os portugueses visitou aquele estabelecimento de ensino. Inteligente como é, às tantas meteu conversa com Arminda. Dada a comunicabilidade que a ambos caracteriza, enfronharam-se numa conversa em voz baixa, com alguns risos que adversários do benquisto homem público caracterizariam como "joviais e matreiros".
Ninguém sabe o que disseram, mas foi pouco depois que o grande comunicador reiniciou a carreira brilhante que já se dizia votada ao fracasso e, soube-se posteriormente, começou a confeccionar em termos a "vichyssoise".
Arminda, decerto por ser uma excelente e destacada profissional, foi no ano transacto feita Comendadora. E nunca, como recordarão, se viu uma comendadora de tão ridente expressão nos cinzentos corredores presidenciais...
O poema escolhido pela Srª Comendadora é o "Mística" de D.H.Lawrence, na tradução de João Almeida Flor:

Chamam mística a toda a sensação se pensam nela.
Assim qualquer maçã torna-se mística, quando nela saboreio
o estio e as neves, o tumulto selvagem da terra
e a insistência do sol.
Tudo isso posso saborear decerto numa boa maçã.
Embora certas maçãs, ácidas e húmidas, saibam
sobretudo a água
e outras a excesso de sol com a doçura salobra
de águas de laguna soalhenta em demasia.

Se disser que saboreio coisas assim numa maçã
chamam-me místico, isto é, mistificador.
A única maneira de comer maçãs é tragá-las que nem um porco
sem saborear nada
que seja real.
Mas ao comer maçãs, gosto de lhes dar a atenção dos meus sentidos.
Para mim, tragá-las que nem um porco é dar de comer aos mortos.

9 Comments:

Blogger Rui Lage said...

Obrigado, Nicolau, por me ter lembrado esse extraordinário poema do Lawrence que há muito eu já não lia. O D. H. Lawrence é o meu "ai jesus" da poesia em língua inglesa. Um abraço.

1:24 da tarde  
Blogger Rui Manuel Amaral said...

Estes textos são deliciosos.

2:23 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Muito bem! Gosto muito desta nova secção!

5:58 da tarde  
Anonymous Zé Povão said...

Já há algum tempo que aqui não escrevia, embora, pé ante pé, numa nova fase da minha vida que me vai consumindo o parco tempo livre de que dispunha, nunca tenha deixado de espreitar o Quartzo - nem que seja de relance.
Agora que as coisas estão mais estabilizadas, deixem que vos diga que continuam imparáveis! Poucos blogs conseguirão manter uma tão apreciável "evolução na continuidade" (sape, gato!!!) como vocês têm feito. Os meus sinceros parabéns! Um abraço do

Zé Povão

PS: prometo que passarei a escrever mais assiduamente. Não porque entenda que enriqueço o blog com isso, mas porque, nestas coisas das fraternidades literárias e da salutar acção cívica, os bons espíritos, mais do que encontrar-se, devem apoiar-se. E eu gosto muito do vosso!...

6:12 da tarde  
Blogger Rui Manuel Amaral said...

Zé Povão, já várias vezes me interrogara o que teria acontecido para estar tanto tempo ausente. Ainda bem que foi apenas por falta de tempo. Consigo o blogue torna-se muito mais interessante. A maioria dos seus comentários são melhores do que todos os meus posts juntos. Todos lucramos com o seu regresso. Obrigado.

6:28 da tarde  
Anonymous cabidela said...

Para a Arminda Lawrence
da C+S do Seixal
eis o meu bem haja
jovial Senhóra

De si e do Nicolau
que saia muito arroz
e mto mais cabidela
aqui p'ro maralhal

10:21 da manhã  
Anonymous ns said...

Para todos os amigos e leitores, o abraço em geral.
Permitam-me uma saudação especial para o grande Zé Povão, que regressou dinamicamente!
Para Cabidela: a Arminda não pára, obrigado! Agora está a especializar-se no bacalhau à Isaltino (receita do primo Isaltino Fadista) que é de lamber os dedos operosos...
E, para todos, atenção: o folhetim na segunda-feira apresenta o Remígio Guerra, o famoso primo do Filipe e tradutor amador de esperanto!

1:56 da tarde  
Anonymous Margarida Vale de Gato said...

Segunda? Zut alors! q irregular este folhetim...

7:56 da tarde  
Blogger Nicolau Saião said...

Mais Margarida, c'est la lixade vie d'un prof!...Un type gramave dediquer ses jures à la leiture y bonèques, mais les yzamans...le font la tête! Daí lanstabilité du fuyleton. És cuzés sy nu vu dérangions, mé lé té comande lebal...

9:29 da tarde  

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