9.5.05

Post abelhudo (não, não é sobre a Abelha Maia)



Manuel abre de par em par a janela da cozinha, devolvendo à liberdade duas abelhas que sucumbiam ao calor e à falta de alimento, subindo e descendo ao acaso a superfície de vidro e incapazes de encontrar uma abertura por onde se pudessem escapulir. Agradecidas, as abelhitas ainda lançaram a Manuel um olhar comovido enquanto voavam em direcção às estevas e rosmaninhos da encosta mais próxima, mortinhas por saciarem os respectivos aparelhos bucais. Ora aconteceu que um dia, tendo Manuel trabalhado toda a manhã nas vinhas sob um sol castigador, sentiu-lhe falhar a consciência, turvar-se-lhe a vista, e caiu por terra sem sentidos, rolando pelo declive do patamar e partindo as duas pernas de encontro às fragas em baixo (podia ter só partido uma, mas duas sempre é mais sensacional, e de resto já estou arrependido de ter começado esta história verdadeiramente estapafúrdia, coisa de quem não tem melhor para postar). Depois de berrar por socorro, gastando as poucas forças que lhe restavam e achando-se incapaz de aguentar um segundo que fosse em pé, para ali ficou, sem pinga de água e sem sombra que o pudesse abrigar do sol. As duas abelhas, que por ali se entretinham a comentar a última crónica do Vasco Pulido Valente, repararam na grande massa inerte do Manuel e reconheceram os traços do seu amado salvador. Pois logo deitaram a voar a toda a bolina para a aldeia, e assim que puderam alcançar o café onde se jogava à sueca e se ingeriam astronómicas quantidades de Super Bock, puseram-se logo a zumbir, a zumbir, a zumbir que era coisa que só vista e ouvida, e deixaram a aldeia toda num grande alvoroço. Um dos convivas, virando-se para outro, disse:"Ó coisinho, estas duas abelhas não são aquelas que o Manuel tirou de apuros há coisa de uma semana?", ao que o outro replicou, "quer-me parecer que sim, que são, de facto, as abelhas o Manuel tirou de apuros há coisa de uma semana. E olha que as gajas querem dizer-nos qualquer coisa, e eu tenho para mim que algo de ruim aconteceu ao Manuel para elas virem aqui fazer este estardalhaço todo. O melhor é segui-las. Se o Manuel está nalguma aflição, elas saberão mostrar-nos o caminho". E assim fizeram os homens e as mulheres daquela aldeia, munidos de forquilhas, archotes (entretanto anoitecera) e paus afiados. Penduraram lanternas nas patas das abelhas para as puderem discernir por entre as trevas. A multidão, que engrossava à medida que ia progredindo pelas ruas da aldeia, seguiu as duas abelhas até às vinhas do Manuel, onde foram encontrá-lo já quase sem vida. As duas valentes abelhas descreviam espirais de alegria no ar e a multidão dava vivas, aclamando as heroínas que haviam pago de maneira tão entusiástica e eficaz a dívida que tinham para com o esforçado agricultor.
Já um mês se passara e o Manuel, com o gesso acabadinho de tirar, conduzia a sua carrinha na rua principal, feliz da vida. As duas abelhas, que vinham em sentido contrário, nem tiveram tempo de soltar um ai antes de se esborracharem contra o pára-brisas e o condutor, fazendo esguichar o líquido para limpar o vidro das incómodas manchas amarelas, apagou para sempre da terra o rasto das suas fiéis amigas.

Moral da história: não faço a mais pequena ideia.
E desculpem lá qualquer coisinha, sim?

Walt Disney