3.5.05

Cidadão de parte incerta



Uma espécie de pequeno arrepio. Ou nem bem arrepio, nem talvez um fragmento de trémulo olhar na direcção do que foi, do que era, do que esteve entre noite e manhã. Uma espécie de relancear, de olhadela em diagonal.
Alguém lhe contara que a mocinha chegava altas horas, com a lua pisca piscando entre nuvens baixas, entre paredes e ramagens de pequenas árvores (de pequenas plantas e flores fazendo boca-de-cena) e ficava muito quieta, talvez nostálgica talvez melancólica a mirar semi-escondida o quintal/jardim para ver como é que ele era quando ela lá não estava...
E ninguém lhe contara, afinal, lera sim numa folha perdida entre anos, viagens, casos e acasos. Terras, gentes, acasos... Vendo bem a estorinha viera naturalmente - colando-se a muitas recordações, alguns espantos, um grato momento de conhecimento possível. E ficara num canto da cabeça à espera sem o saber destes minutos rememorados.
Viu com a maquineta. Leu como se fôsse um local de outro território. Até com um pouco de emoção. Então era assim?
Lá estava, lá estava a acolhedora saleta onde se juntavam três quatro fabianos e mais nos seus conciliábulos. Nos seus triálogos, na sua conversa de gente comparticipativa. Era pois verdade - como na estória do escravo no "Conde Belisário" do Robert Graves - que uma semana pode durar uns anos? Digamos uma data de meses?
O quintal/jardim assim como se fôssem plantas e flores girando como fábulas... Por uma, duas, três luas de intervalo? Até à vista...
Até à vista, irmãos - até ao meu regresso!