5.4.05

UMA PEQUENA MORTE Alentejana



A notícia chegou-me aos ouvidos com um ar de sugestão avolumada: o Estica fôra encontrado morto, com um golpe no pescoço, num urinol esconso da cidade. E os bolsos, de habitual vazios, estavam ainda mais vazios.
Toda a gente conhecia o Estica. Cultor fervoroso dos prazeres de Baco, o seu físico longilíneo corroborava, digamos, o apelido - pois que de apelido se tratava, embora muitos pensassem que se tratava de anexim. Nas recordações de infância e de adolescência de muito quarentão o cidadão José Estica era figura facilmente detectável, quer todo vestido de branco a vender gelados (os gilaus do Estica), quer a pontapear a bola - pois nos seus bons tempos, ajudado pela pujança juvenil que as libações posteriores iriam pouco a pouco destroçando, fizera o seu brilharete num dos clubes locais.
O Estica teria uma história interior? Possivelmente, uma vez que toda a gente a tem, sendo questão pessoal a resposta que se lhe dá. Ele optara pelo apego ao copo, tranquila e caladamente. Era uma figura popular e típica, talvez a última duma dada fase citadina e, na sua humildade de quem se dispersa nos dias e nas ruas, um cidadão simpático e tranquilo.
Não se distinguiu por obras materiais, por divulgadas actividades nesses campos onde releva o saber-fazer de perduráveis fastos: o Estica era mais um protagonista dessa coisa que é viver ora nas bermas ora no outro lado da existência. De maneira muito própria e distraidamente cordial cumpriu o seu destino de homem entre os diferentes homens.
Andou por cá. Viveu. E foi findar um dia num lugar onde o seu destino o fez aportar, sabe-se lá com que angústias interiores.
Que descanse em paz.