22.4.05

A Terra, como na adolescência



Apenas uma rua. Que tinha tudo ou quase tudo: a leitaria da dona Tomásia, a carvoaria do senhor Manel e da senhora Maria dos Potes (sempre meio enfarruscados) a tasca do Manuel Calha que era de sua profissão de Estado cantoneiro, a minha mestra menina D. Emília, a padaria da Margarida gorda. E os sapateiros: com mestre João Mateus à cabeça, ali havia desde o Benfica ao Sporting, desde a pesca à linha aos bailaricos na Sociedade Euterpe, na Robinson, na União Operária...E as patuscadas na taberna do senhor Abreu.
A minha Terra. A minha rua, que era a minha Terra. Perdida para sempre, mesmo que lá passe agora - como passo, por mor de obras ingentes na cidade - todos os dias. Casas fechadas, portas onde só repassam fantasmas...De olhos arrasados, de mãos muitas vezes a tremer.
Não percam a Terra. Ajudem a não perder a Terra. É que se se perder a Terra perder-se-ão, por dentro e por fora, até todas as ruas desaparecidas.

E vai a seguir, para amenizar, um poema meio ecológico do Gérard Calandre:

NOTÍCIA

Ao declinar da tarde chego à cabana velha
de muitas gerações. O silencio deixa-me respirar.
As paredes ainda são as mesmas. Grandes manchas
de humidade, a luz de astros distantes, a presença
de pássaros desconhecidos. Os meus pensamentos que
iniciam a ronda das sombras. Era um dia era uma hora
propícia de repousos, de vozes como antigamente.
Coisas construídas e eu estou aqui
ladrar de cães entre as árvores. Eu vejo
mais do que a luz, as linhas leves dos montes.
Desce neles o perfil divino da terra molhada.
As estações na ombreira da porta Raramente lembramos
os lugares como um livro que se abre Horizonte já
inacessível.
O primo pequeno o calção sujo de terra Fotografias
pacientemente dispostas sobre a mesa de madeira
Sem detença me abandono Veredas perfumadas flores voando
pulsa lento o sangue junto ao esqueleto

Neste chão vos imagino calados como outrora
vida sem desenlace o fogo que se desenrola
amei em vós o fulgor do coaxar das rãs
o alfabeto sensível do que a escuridão me dizia.

Devagar. Deus dá-se por satisfeito espreguiça-se
no sereno entardecer. Devagar digo de mim para mim
Longa criatura arfando na terra nas horas que passam.

Abro a porta, aguardo a quietude abro a saída
uma chuva mais frágil entre duas águas que se reúnem.

in "Vestígios"
Trad. NS, prefácio de Ruy Ventura