8.4.05

O sonho é uma segunda vida.



Andava eu contente da vida a ler "Aurélia" (1855), essa narrativa maravilhosa de Gérard de Nerval (1808-1855), romântico icónico, mas também desdichado, o "tenebroso, viúvo, inconsolável" cujos poemas foram reclamados pelos surrealistas, quando me dei conta de que havia ali Pessoa (com a ressalva de que já havia Pessoa no "Je est un autre" de Rimbaud), quer dizer, dúvida de si, desconfiança de se ser, pressentimento de que se é outro, apelação para um duplo:

"Mas quem era afinal este espírito que era eu e fora de eu? Seria o Double das lendas, ou aquele irmão místico que os Orientais chamam Ferouïr? - Não me encantara eu com a história do cavaleiro que combateu toda a noite contra um desconhecido que era ele próprio? Quem quer que ele seja, creio que a imaginação humana não inventou nada que não seja verdadeiro, neste mundo ou nos outros (...). Uma ideia terrível apoderou-se de mim: "o homem é duplo" - disse para comigo. - "Eu sinto dois homens em mim", escreveu um Padre da Igreja (...). Há em cada homem um espectador e um actor, aquele que fala e aquele que responde."

Gérard de Nerval. "Aurélia".
Paris, Librio, 1994, p.38.


Em "Aurélia", um dos textos amplamente estudados por Todorov no seu "Introdução à Literatura Fantástica", já não há qualquer gradação valorativa entre este mundo - da segurança e da estabilidade - e o outro - ilógico e fantástico -, entre este Eu e o outro Eu. O herói não se vê confrontado com um mundo dos sonhos que ocasionalmente fractura o mundo real, questionando-o, mas esses dois mundos valem o mesmo, olham-se um no outro, ambos espelhos e ambos reflexos. Não se trata do tema, tão explorado no cinema fantástico e de FC, do herói que de repente se questiona se o real que percepciona é mesmo real ou mero simulacro de real. Aqui o mundo terrestre e o mundo sobrenatural acordam um do outro ou adormecem um no outro. Quando muito, os dois são simulacros, o que torna tudo muito confuso para a humanidade, e os deuses numa raça de seres ainda mais cruéis do que pensávamos. Aurélia, a amada do herói, está morta neste mundo desde a primeira linha e viva neste mundo deste a primeira linha, viva e morta em dois planos que se interseccionam (nem vampira nem "zombie" como em Poe, criaturas que introduzem caos ou rupturas na ordem do real, mas mulher). E é por via do amor de Aurélia que o herói faz a sua demanda espiritual, a sua ascese (uma espécie de "Werther" on acid) tentando encontrar-se não neste mundo, ou no outro, mas nos dois, porque "o sonho é uma segunda vida".

Nada disto, no entanto, nos autoriza a pôr de lado a hipótese de o herói de "Aurélia" ser apenas um louco.