28.4.05

O Silêncio é de Ouro (Bizantino)



Um dos álbuns mais fascinantes saídos das cinzas do terrorismo sónico dos primeiros anos da "cena" industrial é este "Zamia Lehmanni: Songs for Byzantine Flowers" (1996) dos SPK (Socialistiches Patienten Kollektiv), colectivo responsável por agressões sonoras tão memoráveis como "Information Overload" de 1980 e "Leichenschrei", de 1982 (ainda hoje desafios para qualquer apreciador de músicas extremas). Do seio dos SPK sairiam Graeme Revell, que gravou algo de verdadeiramente assombroso e único em 1994, "The Insect Musicians", composições feitas a partir de sons de insectos, e Lustmord, o mago/necromante do "dark ambient", responsável por alguma da música mais assustadora que poderão ouvir ("The Monstruous Soul", "Heresy", "The Place Where the Black Stars Hang", entre outros). Mas neste "Songs for Byzantine Flowers" os SPK deixaram para trás as unidades fabris onde se entretinham a dizimar ouvidos internos com martelos pneumáticos, serras eléctricas, rebarbadoras e outros instrumentos de tortura, às vezes em território próximo dos primeiros Neubauten e dos Throbbing Gristle, e fazem jus ao nome do disco. Trata-se de música verdadeiramente bizantina, de cruzamentos improváveis, de exuberâncias, exotismos, sonoridades e ambiências decadentes, surreais, indutoras de estranhamento e cruzando, tal como na arte bizantina, influências orientais e ocidentais. Como se o canto gregoriano tivesse nascido na Indonésia, estão a ver? Alguns dos instrumentos e matérias-primas sonoras utilizadas provam isso mesmo: "tibetan drums", "balinese bell tree", "balinese puppet gamelan", "african flutes", "javanese flute" ou "new guinea flutes" misturam-se com "orchestra", "choir", "piano", "bells", "drums", "bass", "cello", "violin", "gregorian chants" e com ambiências tipicamente industriais como "printing factory ambience", "factory horns", "sheet metal", "chains", "railway yard ambience" e... "toads" (sapos) e "crows" (corvos) na faixa "Necropolis", baseada na música de Adolph Wolfli. Já estão a imaginar o que pode sair daqui? "In the dying moments", a quarta faixa, é o que o título promete, uma "ars moriendi" medieva em cinco minutos de surrealidade sonora. E já que se fala em decadência, diga-se que uma das faixas tem o nome de uma flor muito apreciada - pelo seu aspecto artificioso e antinatural - por Des Esseintes, o herói de "À Rebours" de Huysmans (com direito a excerto do dito livro no "booklet" do CD ao lado de excertos de Yeats, Mallarmé, Lautréamont, Rimbaud e Baudelaire): "Alocasia Metallica".

1 Comments:

Blogger Jorge said...

Desculpa o meu falar (escrever) jà muito errado (faz muitos anos que nao tenho convivio com nossa linguagem).
Gostei muito de esta apresentaçao. SPK e G.Revell fazem parte dos meus favoritos desde o principio dos anos 80.

7:57 da tarde  

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