6.4.05

"Na corda bamba"



Viver na corda bamba talvez não fôsse o seu lema mas foi sem dúvida o passaporte definitivo para o reconhecimento dos tempos. Dos tempos das letras, da vida entre cá e lá ou, como se costuma dizer, dos momentos em que nos revelamos aos outros e a nós mesmos. Em suma: literatura. Ou melhor, escrita. Ou, ainda melhor, aquele impulso fremente que nos faz contemplar as imagens que por uma brusca inflexão se consubstanciam - ia a dizer transfiguram - e ficam sendo personagens umas vezes inesquecíveis outras vezes inquestionáveis de sugestão e procura.
"O que ele queria era uma 'colónia do espírito', ou seja um grupo cujos pactos proibissem o despeito, o derramamento de sangue e a crueldade. Despedaçar, rasgar, assassinar pertenciam aos que albergavam dentro de si o sentimento emurchecido da temporalidade. O mundo era rude e perigoso e, se não se tomassem medidas, a existência poderia, de facto, tornar-se(...) 'asquerosa, brutal e curta'. Não seria assim se outras pessoas se reunissem para se defender do perigo e da crueza".
Num lado, Joseph - 'empregado da Agencia de Viagens, jovem alto já um tudo nada flácido, mas de qualquer maneira bonito'; no outro lado Augie March - judeus a contas com uma América quase supranumerária no que respeitava ao interior das raças que a ela se haviam acolhido. Quer dizer: que como o primeiro herói se desembaraçava da sua liberdade mergulhando com decisão na aventura perigosa da segunda guerra mundial.
Este Saul Bellow sabia o que fazia. E o que ele melhor fazia era escrever, desenhar a cores e a preto e branco um cenário onde "os seus heróis procuravam na fraternidade e na coragem a dignidade perdida" como reza na apresentação do "The dangling man" saído em primeira mão na "Dom Quixote" dos idos de setenta e seis, com uma capa dum azul parece que muito parecido com os seus dele hoje desvanecidos céus de Chicago.

(Saul Below - Lachine, Montreal 1915-2005. Obras de realce, além de Na corda bamba e entre outros: As aventuras de Augie March, Henderson o rei da chuva, Herzog um homem do nosso tempo, O legado de Humbold, A vítima. Recebeu o Nobel em 1976.)