24.4.05

LONGE DA ALDEIA, PERTO DO CORAÇÃO


Jean-François Millet,1864.

"Praças e Quintais" o livro que Rui Pires Cabral (n. 1967) publicou na Averno em 2003 era excelente, mas "Longe da Aldeia", o último, é magnífico, o seu melhor até à data e um dos melhores livros de poesia que li nos últimos tempos. Fico agora sem saber quem prefiro, se o pai, A. M. Pires Cabral, cujo último, "Douro: Pizzicato e Chula", é divertido e sábio, irónico e belo, ou o filho. Dos poetas atentos aos pequenos acontecimentos do dia a dia, ao que se esconde e espreita (e nos quer falar) na solidão das grandes cidades, dos poetas que não receiam trazer para dentro do poema "a faca suja de manteiga/ na toalha", quer dizer, aquilo habitualmente tido por inestético no sacro templo da literatura mas em que ocupamos tantas vezes o nosso olhar e o nosso pensamento (e tanto do nosso tempo), Rui Pires Cabral é o meu favorito, até porque a sua poesia, nem sempre urbana, também cheira a terra, e o passado (a infância) na aldeia também passa, como um fantasma, por estes versos. Por outro lado, não abdicou totalmente das metáforas e de outros tropos, que usa discreta e estrategicamente, aqui e acolá. Não há neste "Longe da Aldeia" um único poema que mereça nota inferior a muito bom, o que por si só, nos tempos que correm, é obra. Por isso, e porque me é muito difícil escolher, aí vai meio ao acaso:




SHIRLEY ANN EALES.


Na vitrina lê-se Livros Raros
e Usados sob o azul inclinado
de um toldo - mesmo em frente
à glacial cafetaria de franchise
onde o dia destrata o desejo
e não se pode fumar. Subo
aos pequenos gabinetes
mergulhados no doce bafio
da literatura e percorro de A
a Z as espinhas estreitas

e rachadas da poesia. É o sítio
mais vazio de Novembro
e o que mais me reconforta;
e o livro que escolho, por metade
de uma libra, traz no frontispício
um nome e uma morada: Shirley Ann
Eales, de Scottsville - um sumido
autógrafo de maiúsculas magras
e triangulares onde a imaginação
encontra por enquanto pretexto

e oxigénio suficientes para arder.
O teu livro teve outra existência,
pertenceu a outra casa, a outra mesa
de cabeceira - e o pensamento,
de tão óbvio, conjura de repente
uma vertigem, é um corredor
abrupto para a imensidão do mundo
onde trafica o acaso. Ah, sabemos
que a vida é improvável se damos
por nós a cismar, a meio de uma tarde

insípida, numa mulher desconhecida
que lia poemas em Scottsville, nos anos
70. Mas haverá aqui alguma espécie
de sentido, algum sinal guardado
para alguém mais sábio ou inocente
do que eu? Não sei quem és
nem onde estás agora, Shirley Ann,
mas como seria belo se pudesses
um dia encontrar, por obra da mesma
sorte, o teu nome nestes versos.



Rui Pires Cabral. "Longe da Aldeia"
Lisboa, Averno, 2005.