6.4.05

Eu e os duros, em estilo de black mask

Subi as escadas um pouco apreensivo. Ainda me parecia um sonho...Eu no meio dos duros, no convívio com aquela malta que bem cá no fundo sempre admirara. Os manos que sabem como é.
Rapazes espertos, gente que não se desalinha. Os que manejam de facto, que respondem às dificuldades e que dão o mote para a vida de mando com letra grande.
Mas lá passei o guarda-costas, o porteiro que logo cerrou o matacão daquele portame pesado como trinta diabos. Levantei os ombros, não ia deixar ficar mal a minha gente. Assim como assim...
O Al com o seu charutão ao canto da beiçola quase nem me deixou ambientar.
- E então cá estamos nós meus senhores - disse com o seu jeito de boss - E não vamos perder mais tempo: é preciso que tudo corra nos conformes, muito há em jogo nesta nossa...reuniãozinha!
- Cá por mim - adiantou logo o torpe Floyd Três Dedos (nunca gramei este gajo) - nem era preciso nada... Combinava-se de antemão o assunto e depois se o Kowalsky se pusesse com tretas...a minha rapaziada dava-lhe o arroz! Compreendeu, Capone?
- Aguenta! - vociferou o Babyface Nelson, com a mão no lado esquerdo do casaco assertoado - Também tenho alguma coisa a dizer, Floyd... As coisas já não são o que eram, temos de ter cuidado. Não penses lá agora que com esta onda de simpatia pelo Lucky Luciano já podemos andar a fazer tudo. As massas são imprevisíveis, não viste como foi com o Sicilianni? A boa...doutrina tem de continuar!
- Eu punha como Padrinho, limpinho e sem osso e para não perdermos tempo, um Don das Filipinas, ou mesmo um preto do Bronx ou das quadrilhas nigerianas e acabava-se a confusão. Ou se fizer falta mesmo um do gang chinês, que está a ter muita saída...é coisa de futuro - relinchou o Floyd com rudeza.
O Al, ponderadamente, abanou a cabeçorra poderosa e riu um pouco.
-Eu hoje estou muito paciente, Floyd. Não fôsse isso e já tinhas a caixa dos pirolitos amolgada. Capici?
A intervenção dele despoletou uma algaraviada do caneco. Um dizia, outro replicava...
E foi então que, português de lei que sou, me empolguei e rapando da automática escaquei um tirázio para o ar.
Calaram-se todos, pois então.
E no breve silêncio pesado que se seguiu, eu disse então na minha voz bem timbrada de colhudo do Bairro Alto, visando arrumar a questão:
- Ouçam, rapaziada: não quero ser desmancha-prazeres mas porra! Eu acho que hoje por hoje só há uma escolha como deve ser: artilhar-se e mai'nada o nosso Chicão Policarpo!
E para reforçar o meu breve discurso coloquei a mão sugestivamente, pronto para o que desse e viesse, na algibeira direita porque não sou canhoto, da minha gabardina.
À Bogart, claro.