14.4.05

Desporto Rei

O funcionário, com um sorriso afável , abriu a porta depois dos toquezinhos sacramentais e ele viu o presidente, que já se levantara, vir até ele de mão estendida.
- Entre Saraiva, entre... - disse-lhe com o seu proverbial aperto-de-mão varonil e férreo - Vai uma água...um cafézinho? Ná, vamos mas é a um uísque bem geladinho!
Ele sentou-se no maple de couro do lado sul, frente à larga janela envidraçada dando para o rio e as árvores que lá ao fundo verdejavam. O presidente olhou-o a direito.
- Pois é assim, Saraiva - disse com unção o famoso dirigente da poderosa Associação Desportiva - Tenho boas notícias para si! No final da reunião todos nós concordámos em que na próxima temporada o seu Sport Cascalhense vai jogar a Taça Uvefa! Fica contente, não é verdade?
O espanto fê-lo engolir em seco. Recompôs-se com um leve arfar.
- A... a Taça Uvefa, senhor presidente? Mas não devia ser o Benfica, o Porto... Ou o...
- Ora, Saraiva! - atalhou o presidente Reboredo - Chegou a altura de diversificarmos as opções, homem! O país real, esse interior que tem sido tão ignorado, precisa de se engrandecer! Vai o Cascalhense e vai o Sacanavenense e talvez, também, o Regófias... Têm lá um moço que já está a ser olhado de Madrid...
- De Madrid...mas por uma equipa da quarta divisão, senhor presidente - disse ele tentando o equilíbrio - E consta mesmo...
- Saraiva, Madrid sempre é Madrid! - atalhou o presidente da poderosa agremiação - Está dito está dito. Sabe, impõe-se o interesse nacional!
- Mas o meu Cascalhense farta-se de perder, senhor presidente - disse Julião Saraiva humilde e honradamente, com os fortes resquícios campesinos que ainda lhe andavam na maneira de ser.
- E o Benfica, Saraiva? Não perde quando calha? E o Sporting, aquela mansão de instabilidade? E o Porto, que ainda há tempos levou quatro sem resposta? - E o famoso Leopoldo Reboredo, herói das pugnas mediáticas, olhou-o a fundo - Saraiva, o equilíbrio da sociedade é uma ingente tarefa patriótica. Não vê você na política, onde tipinhos sem vergonha e sem talento passam a ocupar cargos da maior relevância? A bem da sociedade, Saraiva! E não vê você noutros campos, do comércio à educação? Se na própria literatura, que tanto tem feito pela pátria, gente sem ponta de jeito ou com um jeito muito relativo, vai até à genialidade a bem da nação, Saraiva - quem somos nós para empatarmos os altos negócios da nossa querida terra? Portanto, volte de coração tranquilo para a sua vila, Saraiva... E rejubile pelo Cascalhense! E diga lá à sua equipa de trabalho que se esforce, que se esmere. Sempre é a Uvefa, que diabo! Mas eu sei que vocês terão tento...que se portarão como cumpre...
Apertou a mão ao grande homem ainda com um certo tremor nas canelas. Tremor, contudo, que a pouco e pouco deixou de ser inquieto, angustiado, para se transformar numa suave e consoladora expectativa de coisas grandes.
"Calma! Não há-de haver azar. O desporto...é como tudo, afinal!" - pensou Saraiva com os seus botões enquanto caminhava emocionado junto ao funcionário que o escoltava delicadamente.