4.4.05

Coisas de gémeos



O Harald e o Henrik. Gémeos, mas não iguais como gotas de água - ou como flocos de neve. No caso neve sueca, pois nasceram e residem em Anneberg.
Mas iguais no gosto e no talento de artistas. E semelhantes na estrutura da sua arte. Semelhantes, sublinho - porque se Henrik pinta com o pincel, Harald "pinta" com a tesoura. Ou seja, recorta papéis e tecidos (trapos - é tão bela esta palavra), junta-os e cola-os de acordo com o seu teatro de luzes e sombras interiores.
E tudo neles se harmoniza num diálogo singular.
As suas obras estão expostas e sugestionam-nos em Portalegre até dia 18: as de Harald no Museu da Tapeçaria portalegrense, as de Henrik na Biblioteca da cidade norte-alentejana, esta onde nos conhecêmos a pretexto dos poemas de Attila Joszef - que ele editou em sueco e ilustrou através da linguagem universal do guache e do desenho a tinta-china.
Para o seu catálogo escrevi o pequeno texto que aqui fica:

Henrik Edstrom e a reconversão do universo

"Todo o verdadeiro pintor é de facto um demiurgo. Mediante as cores e as formas com que se erguem os sinais dos três reinos da natureza, o que ele visa é transfigurar a existência em algo de significativo e de salubre, indo para além das condicionantes sociais e humanas. A pintura autêntica é uma alquimia espiritual, que transforma e que faz permanecer os signos que a sustentam.
Henrik Edstrom, através da sua paleta tão sabedora e livre como o coração duma criança, viaja pelos mundos onde dá gosto viver, mas com o conhecimento que de tal pode ter um animal quotidiano ou fabuloso entre os bosques e jardins dos nossos afectos vitais.
Nele habitam o poeta e o artista - que as cores e seus prestígios revelam como num encantamento que a todos é, afinal, íntimo e comunicativo".