21.4.05

Cidadania europeia, só com autorização de grandes pensadores



José Gil, o pensador cinzento da moda, para quem tudo se explica por medos, complexos, angústias e "não-inscrições", escreve umas cinzentíssimas tretas na revista "Visão" desta semana. Diz-nos que "não há cidadania abstracta", para negar a viabilidade de uma cidadania europeia, ou do estatuto de "cidadão europeu" (muito paleio para, no fundo, poder escrever que "a União Europeia nunca foi, como tantos politólogos, sociólogos e historiadores insistem, uma ideia entusiasmante"), porque "a cidadania identificou-se ao carácter singular de cada nacionalidade" ou "dentro do Estado-nação, a cidadania teceu-se à volta da ideia de nação e de unidade nacional" (foi preciso aparecer este iluminado para ficarmos a sabê-lo). José Gil toma-nos por lorpas e transforma, ele sim, a cidadania numa coisa abstracta, nada mais fazendo no resto do texto senão sofismar a partir da ideia que antes repudiara. Ai o Gil pensa que nós, cidadãos portugueses e europeus, precisamos de pedir licença ao Estado-nação para nos sentirmos (ou para sermos) cidadãos portugueses e europeus? Ai ele é assim que a gente se identifica com uma "nação"? Abstractamente? Ou é viajando até Londres, Paris ou Roma, e lá, isso sim, sentirmo-nos ou não cidadãos europeus e portugueses? E isto como se algum dia fosse possível sermos portugueses sem sermos primeiramente europeus, ou sem nos pensarmos dentro da Europa, "inscritos" (e escritos) em séculos de História comum. O Gil acha, vejam só, que "o território identitário (material e mental) da nova comunidade está ainda por definir"; é que, escreve ele, "o próprio solo fundador tem ainda uma dinâmica viva e resistente (nos Estados-nações)" - mal de nós se assim não fosse pois já não seríamos Europa! Mas eu e o Gil estaremos a falar da (ou a viver na) mesma Europa? Naquela cujas nações dialogaram, para o bem e para o mal, ao longo da História, mutuamente se influenciando na cidadania, no direito, na política, na guerra, no pensamento, na religião, nos costumes, na arte, na literatura e por aí fora? Naquela cujas fronteiras tantas vezes se moveram para lá e para cá, tendo várias nações sido absorvidas por outras, outras insuspeitamente nascidas do interior de outras, etc., etc? Naquela que acolhe trabalhadores de diversos países do espaço europeu, e que os integra, que os faz sentir em casa? Será que quando o Gil vai lá fora se sente assim tão tão português (tão "little portuguese alien in New York") que se ponha depois, complexado e cinzento, a pensar nestes macaquinhos de sótão de terceira categoria, nestas noções medievas? Alguém lhe diga que a cidadania europeia, precisamente porque não é coisa abstracta, é já um facto, um facto do foro íntimo e mental que tenderá a ser cada vez mais do foro material.
Ah, um Victor Hugo que se levantasse da tumba e lhe comesse os fígados com cebolada! Se são estes os pensadores que temos, a Europa está bem tramada. Em vez de se esforçarem por tornar a União Europeia "uma ideia entusiasmante", dão-lhes com os pés. Arre que são reaccionários e conservadores por demais, estes livres-pensadores europeus! Venham de lá os "neo-cons" americanos, que ao menos não andam com falinhas mansas. Deve ser à conta de gajos destes que o "não" à Constituição Europeia ameaça ganhar em França.
Mil vezes ler o Ricardo Araújo Pereira na página anterior! Esse sim, sabe qual é a questão essencial: "felizmente, eu sei exactamente qual é a questão essencial. Seria, aliás, ridículo se estivesse a falar sobre isto e não soubesse".