11.4.05

Alguns conselhos para uso do futuro papa

1. A partir do momento em que é designado pelo colégio de cardeais reunido no conclave, o novo papa deixa de ser papável e passa, de imediato, a ser papa. Papa de pleno direito, com tudo o que isso implica. O voto de castidade por ele assumido não lhe pediria, aliás, outra coisa. Como é bom de ver, um homem que permaneça papável por demasiado tempo corre sempre o risco de que alguém o pape.

2. É bom que, desde o início, o novo papa se convença mesmo de que é papa. Por muito preparado que alguém esteja, é natural que sobrevenha um pequeno período de atordoamento, até de incredulidade face à supina responsabilidade que lhe foi posta entre mãos. Mas, logo que possível, o novo pontífice deve ser capaz de interiorizar o seu papel. Isto significa que deixou de ser apenas padre, já não é um cardeal igual a outros, é, sim, Sua Santidade, o titular da cadeira de S. Pedro. E apenas se livrará dela quando dela tiver de sair com os pés para a frente. Levado por Deus, que é a única entidade superior a ele e a quem terá de prestar contas de vez em quando. Mas só de vez em quando.

3. Saiba também o novo papa que não está autorizado a enganar-se. Melhor dito, nenhum engano seu é sequer concebível porque o papa está coberto pelo princípio da infalibilidade. Ou seja, qualquer afirmação sua sobre matéria de fé constitui verdade absoluta e não pode ser questionada. Por isso, o novo papa deve ter muito cuidadinho com o que diz. Deve prestar uma atenção redobrada aos actos falhados, aos lapsos linguísticos, às declarações não-sérias e às expressões equívocas. Como ser humano que é, não obstante a posição quase-divina em que se encontra, não está decerto imune a estas armadilhas do subconsciente. Se não for especialmente vigilante, ainda pode levar irreflectidamente a Santa Madre Igreja a erigir o disparate em letra de lei. E isso seria muito desagradável.

4. O novo papa deve também procurar libertar-se da tralha dos seus antecessores e afirmar uma voz própria. Porque o Vaticano tem muita História, alguma dela pesada, tem armários cheios de esqueletos e teias de aranha e, se Sua Santidade não se puser a pau, esse pérfido mobiliário ainda lhe pode cair em cima.

5. Sempre que haja uma aberta na burocracia romana, deve o papa aproveitar para sair, espairecer, abençoar aqui e acolá. Não lhe servirá de nada ficar no seu gabinete a ruminar ideias ou a adivinhar conspirações em cada nariz adunco. Sobretudo, não deve esquecer que mais vale ficar conhecido por papa-peregrino do que por papa-inquilino.