17.3.05

Real, real, porque me abandonaste?

Ao lermos num comentário do João Luís Barreto Guimarães que a poesia deste se inscreve numa "poesia quotidiana, real, coloquial" ficamos logo a cismar e a tentar imaginar o que possa ser o contrário de uma "poesia quotidiana, real, coloquial". Parece que afinal muita da poesia que tenho lido ao longo dos anos não é real, e eu, ingénuo como sou, pensando estar a ler sobre coisas reais, eis que constato que mais não fiz do que ler versos sobre coisas irreais. Como ainda sou novo talvez não seja tarde de mais para corrigir o erro, desenjoar de tanta irrealidade e deixar-me conduzir, como bom aluno, para a realidade. Ainda bem que não falta quem pregue a moral do real. Nem tudo está perdido enquanto tivermos entre nós os apóstolos da realidade.
Real, se excluirmos o emprego da palavra como ferramenta de trabalho em algumas tentativas de explicação fenomenológica do mundo, significa rigorosamente nada. E quanto ao quotidiano, eu pergunto: o que é o quotidiano? O quotidiano é feito de pormenores, pequenos acontecimentos, minudências e detalhes mais do que de reflexões, abstracções, pensamentos obscuros, exaltações, ejaculações, achaques ou crises de patetice? E existem uns sem outros? Que bizarra e, numa palavra, IRREAL concepção é essa do quotidiano? O que eu sei é que o quotidiano é feito de tudo e de nada, é feito de tempo, que corre por nós dentro seguindo o seu curso e levando na corrente alegrias e misérias, baixeza e elevação, pequenos acontecimentos e grandes tragédias. Eu não sei o que possa ser uma poesia que não seja do quotidiano. Alguém mo poderá explicar?

Mas entrando nesse jogo da poesia "quotidiana, real, coloquial", o que é um poema como "Acerca de Gatos", de Eugénio, senão um poema do "quotidiano", com "a leitura do Público ao domingo" metida ao barulho e tudo? E quando o Cesariny escreve "Gerente, este leite está azedo!", o que é isso? Não é o quotidiano? Não é o "real"? Então é o quê? E quando o Manuel António Pina, que é o que de melhor tem a poesia portuguesa contemporânea, escreve "resta-me ver televisão, / votar, passear o cão/ (a cidadania!)./ Prosa também podia, / e lentidão, mas algo (talvez o coração) desacertaria", isso é o quê? E não é que o António Franco Alexandre - pois, até ele! - escreve, no "Aracne", uma coisa tão pouco "quotidiana, real, coloquial", como "Abro a porta do armário; na janela/ há um reflexo bom de lua esguia;/ com patas firmes vou à sala, espreito/ o teu corpo dourado que dormita/ diante da tv; ainda não sabes/ que vim de viagem, dentro de uma mala"? E quando o A. M. Pires Cabral vê vir os ciganos "dos lados de Grijó/ e estão todos de frente para mim/ e parecem-me gente - nada mais", o que é isso? Ah mas esperem lá, o A. M. Pires Cabral não é um gajo da cidade, não escreve poesia urbana mas poesia rural, e o campo - toda a gente sabe! - não é real. Aliás, estamos mesmo em condições de dizer que no campo não há quotidiano, e que por isso mais vale não escrever sobre ele. E o Vasco Graça Moura, quando diz "na praia lá do guincho as velas/ de windsurf saltam sobre as ondas/ e o meu olhar, equestre, / pula nos peitos das banhistas, enquanto/ um cachorro tenta agarra a cauda"? Não tem "real" suficiente? Não é do "quotidiano"? E a Sophia? Querem o "real" da Sophia? Ora tomem lá: "Brilha a cidade dos anúncios luminosos/ Com espiritismo bares cinemas/ Com torvas janelas e seus torvos gozos/ Brilha a cidade alheia. // Com seus bairros de becos e de escadas/ De candeeiros tristes e nostálgicas/ Mulheres lavando a loiça em frente das janelas". Ah mas isto não é poesia "quotidiana"!? Ah então desculpem-me, por quem sois! E o Gastão Cruz, tão suspeito de aridez e de abstracção, não é que foi escrever, o malandreco, uma coisa tão "literal" como esta no "Rua de Portugal": "Na horta atrás da casa laranjeiras/ figueiras e uma/ romãzeira junto à nora"; ou como esta, no ainda fresco "Repercussão": "Reabro uma/ gaveta da infância/ e encontro a colher em desuso caída/ a sopa lentamente se escoando/ no prato fundo"? Ah mas querem ver que afinal não é isto o quotidiano, mas outra coisa qualquer! E a Fiama, com o seu louva-a-deus morto em cima da toalha de mesa, também não é real? E o Sena? E o Ruy Belo? E o Sá-Carneiro mais os Cafés da sua preguiça? E o O'Neill? O Cesário, pois claro. Mas e então o Fernando Pessoa!? Se alguém em Portugal escreveu sobre o "quotidiano", foi ele: sobre um quotidiano universal, comum a qualquer homem de qualquer parte do mundo, e não só sobre o quotidiano de um guarda-livros da baixa lisboeta, o que faz toda a diferença.
E é com a superficialidade e a vacuidade de todos estes conceitos que alguma crítica literária tem estupidamente compartimentado e peneirado a poesia portuguesa recente. Como se alguns poetas tivessem o monopólio do real, do quotidiano e do coloquial! A questão é que muitos dos nossos poetas (alguns bons e alguns maus) são uns complexados. Não lhes basta dizer que escrevem poesia, têm que ostentar um cartão de sócio, como se tivessem vergonha de serem confundidos com os outros, os poetas do "irreal" (ou os poetas irreais), que, coitadinhos, escrevem a poesia errada. Não existe poesia real e poesia irreal, só poesia boa e poesia má. Nem há que tomar à letra aquilo que foi apenas uma "boutade" do Joaquim Manuel Magalhães, cuja poesia, aliás, é tudo menos despojada, tudo menos literal (e toda cheia de qualidades).

E querem saber que mais?

O real
é tão natural
quanto a sua sede.