Os galos de Apolo

Sim, eles eram justamente célebres. Cantavam que era um regalo alertando toda a confraria dos deuses e de alguns humanos mais dorminhocos. Algum deles teria cocoricó de cana rachada? Mas, isto digo eu, mesmo que tivesse não se devia notar no meio daquele coro celeste.
Mas isso eram os deuses. Quanto aos humanos, mais propriamente quanto a mim, se não tenho galos tenho pombos. Ou seja: tenho meia dúzia de pombos no rebordo da varanda por cima da janela do meu quarto. Pombos, pombinhos? É como vos digo - pombos sem dono, pombos órfãos devido ao passamento - que lá esteja em paz! - do seu defunto ex-proprietário, adepto até ao fim da nobre arte da columbofilia.
Morreu, morreu - que se lixe a taça: e sem querer, sem nada fazer, herdei-lhe a equipa sem herdar. Porque os pobres voláteis, desertos de casa e de carinhos, foram então criar o seu lar no tal cantinho que lhes pareceu acolhedor.
Todas as manhãs me acordam com o seu doce arrulhar.
E eu deito-lhes restos de pão, punhaditos de milho, uma mancheia de miolos de bolo caído em desuso...
Mas - diabos ou deus do céu - comecei com esta estorieta e perdi-me! Porque nem era disto que eu vos queria falar! Estas madurezas de poeta bissexto...
O que eu vos queria contar, com natural aprazimento, era que finalmente o Dan Brown foi posto no Index da hierarquia de Roma. Conforme declarou o sr. cardeal Tarcísio Bertone - que não sendo um crítico literário é contudo uma pessoa muito atenta - "Devia ter tomado posição mais cedo!..." (cito de memória). Sim, se fôsse mais expedito podia ter evitado a compra de uns milhares ou milhões de tomos do prosador em causa.
Mas bom - bom mesmo! - era se o Santo Ofício pudesse, como antigamente, tomar conta do pêlo àquele ficcionista. Seria um regalo - e Torquemada, lá nos "transcendentes recantos" como dizia o Eça, decerto rejubilaria.
Que Deus nos valha, Eminência! Ou então, ao menos, que o cantar dos galos de Apolo acordem os dorminhocos para o quotidiano dum mundo que já não vai lá com actos-de-fé...

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