12.3.05

Contra mim falo

Sentia que me tinha esquecido de qualquer coisa. Não sabia bem o que era. Uma espécie de zoeira a ratar, a desbastar por dentro... O Valdez - o meu Zé, o Prof. Travassos Valdez que me trata do pêlo quando faz falta - bem me disse tempos atrás: "O problema resolve-se comendo muito alho...Isso é uma questão de irrigação, pá. A carótida, 'tás a ver? Casca-lhe no alho, seis sete dentes por dia. Não há melhor para a artériazinha...". E eu lá tentava. Vai que não vai, alho p'ra cima. Mas por vezes distraio-me - e já está! Pois. Uns esquecimentos, coisa de chatear: chaves aqui ou acolá? Este poeta belga que afinal é suíço. A data dos anos do primo amado ou da cunhada saudosa que foram à viola. Já perceberam, meus passarinhos?
E hoje descobri. Ao ler num blog visitado por acaso. O nome? Um dos muitos que há. Daqueles que estimo e que, agora que já sou um pesquisador encartado, de vez em quando leio ou relanceio com aprazimento.
Pois foi o Cesário. O meu verdinho. Da côr do meu Sporting - esta coisa da bola para mim é uma espécie de aventura exactamente na desportiva. Como fazia em pequeno... Mas adiante!
É que fazia anos que o mestre do nosso Pessoa em Fevereiro batera a bota. Já há uns aninhos, tá de ver. Vocês sabem. E na imprensa, Net incluída, terçaram-lhe lembrança. E a mim ficou-me este hiato - que vou agora colmatar.
Este que vai a seguir foi um poema que em tempos me solicitaram para uma antologia de homenagem. Mandei. Passou tempo. Não saíu na antologia. Nas tintas...Mas ficou-me a pergunta: porque teria sido? Depois de o ter publicado mais tarde no "Flauta" (um dos meus cartapácios, o sr. Flauta de Pan de seu nome completo) alguém meu conhecido me descriptou o mistério: um dos beltranos da editora achou - juro-vos que é verdade! - que o poema gozava um bocado o Cesário...
Aquilatem, se tiverem pachorra para tal. Ele aqui fica, para se divertirem eventualmente durante um minuto. A mim serve-me para assim pedir desculpa ao filho do sr. Verde pelo esquecimento.
E bom fim de semana...


CESÁRIO REVISITADO

Um armário, quando se abre, faz sair
de qualquer prateleira sonetos ou memórias.
E então é assim: deverá dizer-se infância?
Ou burguesa dengosa? Ou repolhos franceses?
Ou manjericão, que alinda as estrofes várias?
A palavra é, como se sabe, inútil
se pelo meio perdemos anos ou dedos impacientes
pondo-se em tudo: sentimentos nutridos
de coisas que encontramos ou buscamos achar
em seios parisienses ou vamos lá lisboetas
connosco em férias numa esplanada de manhã
ou seja em Carcavelos fumando o velho cigarro
ligeiramente a Sul da loja onde guardava
a memória dum Pai, a côdea manducada
no verdadeiro "Sentimento dum Ocidental". Sim
moçoilas, saudáveis e prestantes
como nos louváveis alexandrinos
de bastante coleguia p'ra depois
do desmaio amoroso ou antes manuscrito
na Quinta se calhar de Linda-a-Pastora
que é recanto onde laranjas bem se encontram
como versos roubados e que logo
após se recomendam aos fregueses
do poema próprio ou alheio. Indiferente substância
desta e doutras
comerciais casas. O vate

procura em diversos estancos sua matéria
de viver ou morrer com chapéu na cabeça
e exegetas ao lado, perna fina
de escrita ou surrobeca nacionais. Peixe pôdre
afinal e rimas inglesas bem ferradas
com algum leve foco de infecção
bem para dentro dos versos e das cores: azul
ou verde ou vice-versa (como na anedota)
onde deviam estar violeta
ou branco nocturno. E é bom dizer-se
- para quem saiba destas coisas singulares -
que o Mestre o querido Mestre o tal do corpo
setentrional e sapiente (um pouco
digamos ao jeito do António Nobre, que por pirraça
habitava caspité! outro Parnaso)
nos seus melhores momentos dorme agora
entre braçados de camélias
ou erros tipográficos
- espinafres, beldroegas, pimentões
que é esse o melhor prato da Poesia. E isso tem
uma tal melancolia, podeis crer
que a mostrar-se em Lisboa explodiria

e rimas que aparecessem lhes chamaria um figo.