16.3.05

Coisas que muito importam a nós, mortais.


Gustave Moreau, "A Aparição", 1874-76.

Trata-se de um diálogo de "Là-Bas", de Huysmans (1848-1907), romance obrigatório para os fãs da Besta, aspirantes a necromantes, demonólogos de fim-de-semana, médiuns de família, seguidores de Gilles de Rais e afins. "Là-Bas" nunca foi traduzido para português, como acontece, aliás, com toda a obra de Huysmans à excepção de "En Rade" ("O Castelo do Homem Ancorado", Estampa, 1985). É uma pena, porque poucos romances da "decadência" conseguem ser tão divertidos. Em finais do século XIX, "Là-Bas", publicado em 1891, era o que os franceses tinham de mais parecido com as sessões das três da manhã no Fantasporto.

"- Permita-me, caro senhor, mas nós podemos escolher de entre doutrinas diversas e, atrevo-me a dizê-lo, muito claras. - Ou a aparição se forma pelo fluído que sai do médium em transe combinado com o fluído das pessoas presentes; - ou então existem no ar seres imateriais, elementais, como lhes chamam, que se manifestam em condições mais ou menos conhecidas; - ou ainda, e temos aqui a teoria espírita pura, estes fenómenos devem-se às almas dos mortos evocadas.
- Bem o sei, disse Durtal, e isso horroriza-me. Conheço também o dogma Hindu das migrações das almas que erram após a morte. Estas almas desencarnadas estão condenadas à vagabundagem até que reencarnem e possam alcançar, de avatar em avatar, uma pureza completa. Bom, a mim parece-me suficiente viver uma vez; agrada-me mais o nada, o buraco, do que todas estas metamorfoses; consola-me mais! Quanto à evocação dos mortos, o mero pensamento de que o salsicheiro da esquina possa forçar a alma de Hugo, de Balzac, de Baudelaire, a conversar com ele, pôr-me-ia fora de mim, se eu acreditasse em semelhante coisa. Ah! Não, ainda assim, por mais abjecto que possa ser, o materialismo é menos vil!"


Huysmans, Joris-Karl. Là-Bas.
Paris, Garnier-Flammarion, 1978, p. 143.