25.2.05

Post decadente




"À Rebours", o romance que Joris-Karl Huysmans publicou em 1884 é a "bíblia" do decadentismo e o momento em que o "mal do século", que se vinha acumulando desde o "René" de Chateaubriand, implode numa congestão de bílis negra, nevrose e tédio. Em "À Rebours", que podemos traduzir por "Do Avesso" ou "Ao Contrário", o que restava do romantismo olhou-se ao espelho e já não se reconheceu. É também um romance de reacção contra um naturalismo de escola que se revelava, depois do magistério de Zola, estafado, e, a certa altura, tão vulgar quanto a vulgaridade que se propôs olhar e retratar com frieza. Se há elementos naturalistas em "À Rebours" eles são já da ordem do "pastiche". Revoltado contra um Deus cruel que abandona os homens à miséria e ao sofrimento, Des Esseintes, o anti-herói de "À Rebours", proclama a supremacia do artificial sobre o natural. O génio artificioso é a única arma de que o homem dispõe para se vingar da sempre vitoriosa natureza (concepção politicamente correcta ou incorrecta?). Des Esseintes entrega-se a orgias de licores, jóias, livros, flores, perfumes e quadros, tentando desesperadamente esquivar o taedium vitae. Nessas orgias sensoriais procura o esquisito, o artificial, o rebuscado, o híbrido, o decadente, e vai aperfeiçoando e cultivando os cinco sentidos como um artista trabalhando na obra-prima da sua vida. A sua demanda incide sobre o passado, em especial sobre os períodos da decadência ou do crepúsculo dos grandes impérios e civilizações - venera acima de tudo o estilo bizantino e as obras latinas tardias - mas também nos seus contemporâneos, o que faz com que "À Rebours" esteja recheado de páginas extraordinárias sobre Mallarmé, Villiers de L'Isle-Adam, Poe, Baudelaire, Verlaine, Barbey D'Aurevilly, Gustave Moreau ou Odilon Redon que todos deviam conhecer.
Marc Fumaroli, no prefácio à edição de "À Rebours" da Gallimard (Paris, 1977), diz-nos que a falta de unidade da voz enunciadora e a dispersão da narrativa num conjunto de pedaços ou retalhos diversos e descontínuos fazem deste "À Rebours" a primeira experiência do stream of consciousness, abrindo por isso as portas ao romance moderno - a Joyce e a Proust, a Sartre e a Céline - e inaugurando uma linhagem que por estes lados é advogada pelo António Lobo Antunes. Marc Fumaroli defende também que "À Rebours" se impôs como o primeiro dos muitos manifestos estéticos de que o século XX foi tão pródigo.
"À Rebours" é uma das obras mais influentes e mais importantes da literatura universal, e tem influenciado não só a "alta" cultura mas também, anonimamente, a cultura "popular".
A questão é que "À Rebours" nunca foi traduzido para português, o que não deixa de ser estranho visto a cultura nacional ter sido dominada pela França durante muitos séculos (agora está dominada pela cultura anglo-saxónica, bastando passar os olhos pelos nossos suplementos literários para comprová-lo). Nem tradução de "À Rebours" nem da obra que lhe sucedeu em 1891, "La-Bas", descida aos infernos em que o herói, Durtal, se propõe escrever a biografia de Gilles de Rais. De facto, no acervo da Biblioteca Nacional apenas se encontra a tradução de "En Route" (1905), publicado com o título "A caminho" e, felizmente, "En Rade" (1887), um livro soberbo que foi traduzido e publicado em 1985 pela Estampa na saudosa colecção "O Livro B", com o título de "O Castelo do Homem Ancorado".

De que estão à espera senhores editores?