19.2.05

O Povo É Sereno #236

O homem que flectiu duas vezes

Primeiro um braço, depois o outro. Sem espasmos, com método. Em seguida os dois simultaneamente, duas vezes. Com cuidado, para que as articulações não estalem. Fazer o mesmo para as pernas. Esticar, sentir os músculos tensos e logo a seguir dobrar, flectir. Isto, duas vezes. O número é importante. Uma vez não basta - duas são precisas para que o movimento cristalize, para que se adquira a certeza de que não se tratou apenas de mais um movimento em falso. Flectir duas vezes. Re-flectir, pois.
Estas flexões, fá-las hoje o homem de si para si. E como as faz duas vezes, o homem reflecte. Tanto se concentrou que até lhe parece que flectiu mais do que duas vezes. Mas foi impressão sua, certamente. O homem limitou-se, pois, a reflectir. E não faz mais do que a sua obrigação cívica, dado que o dia é de reflexão. Amanhã é dia de eleições e hoje é suposto que os portugueses reflictam, ou seja, dobrem os respectivos braços e pernas duas vezes. Agora que terminou a campanha eleitoral e os políticos flectiram tudo o que havia para flectir, uma, duas, várias vezes, todos os portugueses, sem qualquer excepção, terão de flectir por sua parte. Que ranjam pois as cartilagens do povo nesse supremo esforço colectivo de flectir duas vezes! Tremam, velhinhos, que o reumatismo faz parte da democracia! Regenerem-se, "body-builders", que a vossa ginástica diária valerá desta vez um lugar na Assembleia da República!
O homem tem estado a reflectir. Isto não quer dizer que ele saiba exactamente o que está a fazer. Entendamo-nos: o homem reflecte mas ainda não sabe para quê. Há para já uma consequência, que é a dor de burro. Outras poderão vir, mas são ainda desconhecidas. Votar na direita ou na esquerda dependerá em larga medida do lado donde soprar a cãibra.

1. O homem reflectiu e ficou com o braço paralisado. Mais um a engrossar o grupo dos abstencionistas.
2. O homem reflectiu e não chegou a conclusão alguma. Resolveu desistir das aulas de ginástica.
3. Aqueles homens reflectiram ao mesmo tempo. Eram comunistas, de certeza.
4. O homem reflectiu demoradamente. Tanto que ainda foi votar de perna flectida.
5. O boletim de voto deve ser flectido em quatro.
6. O homem reflectiu tudo o que havia para reflectir. Até já cabe dentro de uma gaveta.
7. O homem votou sem reflectir. Votou hirto. Era o Eanes.
8. Se o eleitorado não tivesse braços nem pernas, não era preciso o dia de reflexão.