Defesa de Fernando Pessoa, que Fernando Pessoa dispensa.

No Mil Folhas de hoje podemos ler uma excelente entrevista dada por um excelente poeta, João Miguel Fernandes Jorge. É um bom exemplo de um autor que consegue reflectir sobre a sua própria poesia sem cair em devaneios órficos ou narcísicos. Mas a certa altura, quando perguntado acerca dos poetas de que mais gosta, surge, meia disfarçada, uma afirmação que é tudo menos inocente. Por entre os nomes de Nemésio, Eugénio, Cesariny, Helder, Sena, Cesário, Pessanha e outros, João Miguel Fernandes Jorge encaixa, como quem não quer a coisa, "o Pessoa da "Mensagem", quer dizer, o Pessoa menor (e o Pessoa do "regime"). Tenho lido e ouvido tiradas semelhantes cujo único propósito é menorizar e relativizar o peso de Fernando Pessoa na literatura portuguesa (com que equívoca e vã finalidade não consigo sequer imaginar). Já me passaram pelas mãos alguns textos de carácter ensaístico e mesmo, pasme-se, académico, em que se tenta colocar Pessoa no seu "devido lugar". Uma das estratégias, claro está, é promover a "Mensagem" em detrimento de outras obras do poeta, a pretexto de uma pretensa "redescoberta" desse poema. A explicação para estas manobras de diversão é bastante simples: Pessoa continua a assustar.
Fernando Pessoa não é só um poeta português do século XX e nem sequer o maior poeta português do século XX: Pessoa é toda uma literatura (como alguém disse, penso que Octavio Paz), e é, para além disso, um sistema de pensamento, um padrão mental, uma revolução de lucidez. Pessoa é um dos maiores génios da literatura de todas as línguas, tempos e lugares, e o "Livro do Desassossego" o livro do século XX. Nenhum poeta que veio depois - ou que veio antes - soube gerar, a partir do nada, ou quase do nada, um pensamento especulador e filosófico, ou soube cultivar um olhar irónico e lúcido e com esse pensamento e com esse olhar trespassar o "real" mais pequeno, o quotidiano mais trivial, para o revelar em todo o seu esplendoroso vazio - e em toda a sua esplendorosa beleza. Isto entrando por instantes nesse jogo de falar de um "real" exterior ao poema, ou que, como defendem alguns, só habita a obra de um número restrito de poetas, como se uma garrafa vazia fosse mais importante - mais "real" - que um pensamento "sublime" (outro logro lexical) ou vice-versa. Digamos que, subitamente, uma garrafa vazia pode ser com certeza mais importante que um pensamento "sublime", e vice-versa. Tudo depende do lugar, quer dizer, do facto de nos encontrarmos num Bar ou fechados no quarto dos fundos a ler alternadamente Pascal e Montaigne. Tal noção de "real" é de um reducionismo absolutamente bacoco e de uma infantilidade inacreditável, para não ir mais longe.
Real? Real é a "Tabacaria". Real? Real é a garrafa vazia. Real sou eu a falar de ambos, num poema ou à mesa do café.
Não seria possível "ler" o Portugal contemporâneo sem Pessoa. Ou, se tal fosse possível, ou concebível, seria já "outro" Portugal que não este. Pode-se dizer o mesmo de qualquer um dos outros poetas portugueses que Fernandes Jorge refere? Claro que não. Acresce que nenhum dos poetas da geração de João Miguel Fernandes Jorge, por melhor que seja, e nenhum poeta das gerações anteriores ou posteriores, poderá ambicionar escrever um obra com o significado e com as repercussões da obra de Pessoa. Desde os anos 70 que se sabe que há um complexo em relação à obra "monstruosa" de Fernando Pessoa, uma angústia da influência sem paralelo no nosso país. Mas é curioso que só agora essa angústia, esse complexo, comece a ser verbalizado. Até aqui tinha-se pudor em falar no assunto. Mas não lhes serve de nada, pois Pessoa continuará a ser o que é, "no matter what", e mais vale começarem a pensar numa terapia de grupo, ou de geração, para exorcizarem o fantasma. E sabem qual é a maior ironia de tudo isto? É que Pessoa já previra tudo isto.

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