29.11.04

Bílis Esverdeada # 1


Deixem-me agora ser mauzinho, muito mauzinho, pois que também eu tenho direito a sê-lo de vez em quando. Para fazer o gosto ao dedo, citarei um pouco ao acaso do prefácio a "Os Poemas da Minha Vida" escolhidos pelo advogado e "histórico" do PSD-Porto Miguel Veiga. O prefácio é da lavra do antologiador, e a edição é do Público. Trata-se do número dois de uma nova colecção dirigida por José da Cruz Santos que inclui também as escolhas de Mário Soares, bastante interessantes e não tão previsíveis quanto isso, e as de Urbano Tavares Rodrigues, irrepreensíveis.

"[...]mas que li uma miríade de poemas, ai isso li - que me perdoem os jurisconsultos e os jurisperitos o tempo que consoladamente lhes roubei - e o gosto, o conforto, a companhia, a consolação e o sortilégio dessas leituras, essa ninguém, mas ninguém mos tira."

"O poeta, esse mágico, esse feiticeiro, esse adivinho, esse alquimista, talvez esse duende que ouve sonidos negros (Lorca), esse mediador cósmico, que capta aquela energia que é a essência do mundo [...]."

"Talvez por isto tudo e sobretudo pelo que lhe falta, enquanto outros trazem cruzes e medalhas ao pescoço, eu trago sempre um poema no bolso. Sempre."


Para me redimir, transcrevo em seguida um excerto do prefácio a "Os Poemas da Minha Vida", desta feita escolhidos por Diogo Freitas do Amaral, número três da mesma colecção do Público.

"Há falhas nesta pequena antologia - nomeadamente nos poetas do fim do século XIX, princípios do século XX (Gomes Leal, Cesário Verde, António Nobre, Eugénio de Castro, Camilo Pessanha, Teixeira de Pascoaes); mas essas falhas são minhas e de mais ninguém. Ainda espero ter tempo para as suprir, nos anos da reforma que se avizinha."

Deve ser isto que distingue um intelectual de direita de um intelectual de esquerda. Costuma-se dizer que para bom entendedor meia palavra basta. Mas às vezes não dá para resistir.