24.10.04

O silêncio é de ouro # 159


Um álbum como «Turn on the bright lights» não pode acontecer duas vezes no percurso de uma banda. São milagres irrepetíveis. Mas o último dos Interpol, «Antics», sem igualar esse disco arrebatador, é ainda assim um entusiasmante, comovente e viciante conjunto de canções. E alberga uma canção deslumbrante, a melhor canção do ano, «Take you on a long cruise». Menos denso, menos espesso, menos negro, menos urgente que «Turn on the bright lights», os Interpol deixam agora as canções respirar, e a mistura final faz os sons distanciarem-se uns dos outros e ganharem em nitidez (a masterização puxa pelos agudos mais que no primeiro álbum). Ainda por cima, as letras dos Interpol estão muitos furos acima das letras de outras bandas apostadas em redescobrir o rock dos anos 70 e 80 (exemplo: «If time is my vessel, then learning to love/ might be my way back to sea», de «Public Pervert»). É claro que voltam a evocar os fantasmas de algumas das melhores bandas de guitarras dos anos 80: Joy Division, Chameleons, Echo & The Bunnyman, U2, Psychedelic Furs, The Cure e até Smiths (embora menos que no álbum anterior, onde «Say Hello to the Angels» tinha o mesmo riff de guitarra de «This Charming Man»). Mas se há uma coisa que já tivemos a hipótese de verificar é que a cultura popular é uma eterna reciclagem ou reinvenção do passado recente (se quisermos, essa é a lógica do pensamento humano). A questão está, como sempre esteve, em criar algo de novo e original a partir do «velho», ou da tradição, ao invés de criar apenas velharia prematura. Só não percebo é como é que alguns críticos musicais portugueses acusam os Interpol de pilhagem (como se fez no Blitz), mas aplaudem depois os Loto, que pilham descaradamente os New Order (mesmo que o façam muito bem) ou o insuportável Gomo, que pilha mil e um registos e tendências da música anglo-saxónica, numa salgalhada monumental e sem gosto, não se poupando sequer o «cantor» na imitação de sotaques e trejeitos da língua inglesa, qualquer coisa entre um adolescente tardio e excitado e um Beck de província que não soubesse onde põe os pés. Vá-se lá perceber esta malta.