O Povo É Sereno #168
George W. Bush estava ainda há duas semanas com uma larga vantagem em todos os estudos sobre as intenções de voto dos americanos, mas, a partir do primeiro debate televisivo, John Kerry foi recuperando e chegou mesmo a conseguir uma inversão das posições, a que muitos já tinham desistido de aspirar. Estas oscilações só provam que nada está garantido e, cá para mim, ainda vamos ter no dia 2 de Novembro uma espécie de empate, muito semelhante ao que já aconteceu em 2000, que pode depois pender ou para um lado ou para o outro, "who knows?", pois nem Nostradamus, se fosse vivo, poderia, em disputa tão cerrada como esta, arriscar uma previsão. Só espero que não venha a suceder de novo a desgraça de vermos um presidente americano ser eleito com menos votos do que o adversário. Era caso para mandarmos o sistema eleitoral americano para as "boxes" e deixá-lo lá a fermentar até que alguém se lembrasse de inventar algo melhor. Já bastou o "jogo-de-cintura" de "Dubya" (dúbio?) Bush há quatro anos. O problema é que este duelo está longe de se resumir ao preto e branco, ao idiota Bush contra o inteligente Kerry, ao "terra-a-terra" do Texas contra o "pedante" do Massachusetts, ao "falcão" que só quer a guerra a todo o transe contra a pomba diplomada e diplomática que prefere restaurar as alianças transatlânticas antes de flagelar os inimigos com ataques cirúrgicos, às cómodas dicotomias com que nos habituámos a olhar para a pugna eleitoral americana deste lado do Atlântico. A questão é que as motivações com que os americanos votam passam-nos muitas vezes a nós, europeus, completamente ao lado. O caso da Virgínia Ocidental, um histórico bastião do Partido Democrático e da esquerda americana, e aquilo em que ela se tornou, dão de facto que pensar e ajudam-nos a concluir que nem tudo o que parece é. Depois de muitas e muitas vezes terem votado em massa no Partido Democrático, em 2000 os eleitores deste estado vizinho dos Montes Apalaches deram a sua preferência ao Partido Republicano. E porquê? Porque, muitos deles operários, entenderam responsabilizar Bill Clinton pelo fracasso da indústria siderúrgica, alvo de sucessivos desmantelamentos e emagrecimentos. Se não tivesse acontecido este "volte-face" num estado tradicionalmente de esquerda - dotado de cinco irrisórios votos eleitorais que, no cômputo geral, teriam feito toda a diferença -, provavelmente há quatro anos a América e o mundo estariam a celebrar uma vitória de Al Gore e não de George W. Bush. Actualmente, não consta que a siderurgia de West Virginia esteja melhor, embora Bush prime por um discurso patriótico como aceno aos descontentes, do género "eu é que vou tratar da saúde à deslocalização", mas há ainda o factor "porte de arma", que nos EUA, como toda a gente sabe (e os espectadores de Michael Moore mais ainda), tem uma força tremenda. E, para desgraça de nós todos, é mais uma vez George W. Bush que parece recolher as preferências do "lobby" dos caçadores, que, pelos vistos, são em grande número naquele território. São estes, pois, os assuntos que no dia 2 de Novembro ainda vão fazer desequilibrar os pratos da balança do planeta: a indústria siderúrgica de West Virginia e a caça aos faisões nos arredores de Charleston. É com isto que se vai eleger o próximo "dono do mundo". Salvo seja...

0 Comments:
Enviar um comentário
<< Home