Notas soltas #8 - Leituras
Em Março de 1851, Le Messager de l'Assemblée publica o célebre ensaio Du vin et du haschisch considérés comme moyens de multiplication de l'individualité, que virá mais tarde a constituir a primeira parte de Les Paradis Artificiels. O texto, como o título indicia, trata dos efeitos daquelas drogas no ser humano naquilo que possuem de comum ("o desenvolvimento poético excessivo do homem"), tanto quanto o que têm de diverso ("O vinho exalta a vontade, o haxixe aniquila-a.").
Nos três primeiros capítulos do ensaio, dedicados aos efeitos do álcool, o autor exemplifica os efeitos dessa substância com pequenos episódios quotidianos nos quais a ingestão de álcool se revelou particularmente determinante para o curso da narrativa. Temos, por exemplo, o episódio do tocador de viola que acompanhava Paganini, que face à separação ocorrida entre os dois incita um marmorista fazedor de sepulturas a acompanhá-lo em palco, ao violino, porém sob efeito de álcool: "É impossível exprimir o género de sons que saiu do violino embriagado; Baco em delírio a talhar pedra com uma serra").
Na segunda parte do ensaio, mais extensa, constituída por quatro capítulos, ocupa-se o nosso poeta em discorrer sobre a composição do haxixe ("uma decocção do cânhamo indiano, de manteiga e de uma pequena quantidade de ópio"), a sua utilização ("é preciso dilui-lo em café muito quente, e tomá-lo em jejum"), bem como os seus efeitos: Numa primeira fase provocando "um sentimento muito acentuado das circunstâncias e do ambiente" e "uma certa hilaridade absurda e irresistível"; numa segunda fase "uma sensação de frescura nas extremidades (...); fica-se, como se costuma dizer, com mãos de manteiga, a cabeça pesada" e "as alucinações começam"; e, finalmente, numa terceira fase, "uma beatitude calma e imóvel"; acorda-se no dia seguinte com "uma grande moleza, que não é destituída de encanto".
A curiosidade do texto, porém, consiste em assistir à defesa franca que Baudelaire faz dos efeitos do álcool ("Nada é comparável à alegria do homem que bebe, excepto a alegria do vinho em ser bebido"), incitando ao seu consumo ("Um homem que só bebe água tem um segredo a esconder dos seus semelhantes"), e relativizando os seus perigos ("Confesso que perante os benefícios não tenho coragem de contar os malefícios"), tudo isto em detrimento do uso do haxixe que Baudelaire implicitamente critica ("Jamais um Estado sensato poderia subsistir com o uso do haxixe. É uma coisa que não produz nem guerreiros nem cidadãos"), embora se saiba que na procura dos limites da criatividade que caracterizava a boémia Parisiense daquela época, o poeta fez parte juntamente com Théophile Gautier (1811-72) do "Club des Haschischins" (Clube dos Comedores de Haxixe) que se reunia no hotel Pimodan, hoje hotel de Lauzun, pelo menos desde Maio de 1842.
Talvez pela natureza da publicação onde o artigo saiu, quem sabe se pela imperiosa necessidade de realizar dinheiro para a sua subsistência de boémio, desta vez apanhamos Baudelaire a mentir...

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