Notas soltas #7 - Leituras
Em Janeiro de 1847, com 26 anos de idade, Baudelaire publica a novela La Fanfarlo, no primeiro número do Bulletin de la Société des Gens de Lettres, construída num estilo narrativo próximo do de Balzac e onde a personagem principal masculina, Samuel Cramer, tem sido lido pela crítica como esboçando traços autobiográficos do poeta. Isso mesmo parece o autor querer confirmar ao escrever "Alguns leitores escrupulosos e amadores da verdade verosímil poderão talvez encontrar muitos defeitos nesta história, apesar de eu me ter limitado a trocar os nomes" (p.42).
É de facto relativamente fácil enumerar pontos em comum entre o que sabemos de Baudelaire e a caracterização que este faz, enquanto autor, de Samuel Cramer: A infância em Lyon, a elegância no vestir, uma inclinação natural pelos excessos, as dívidas que ambos acumularam, a acérrima defesa pelas suas preferências culturais, o valor inegociável que atribuí a uma amizade, o afecto pela figura materna, a colecção de casos amorosos, estes exemplos bastariam para tornar mais forte a possibilidade dessa hipótese poder ser algo mais do que uma improvável coincidência. E seria revelador que assim fosse, pelo menos tanto quanto essa outra hipótese de a relação de Samuel com Fanfarlo poder ter sido inspirada na tumultuosa relação do poeta com Jeanne Duval, a actriz mulata com quem o poeta se relacionou durante anos.
Quanto à primeira, a ser verdade, transformar-se-ia a personagem de Samuel mais do que num retrato do poeta, numa desarmante confissão: Logo nas primeiras páginas, Cramer é descrito pelo narrador com um rol de atributos de fraqueza, alguns dos quais por vezes atribuídos aos flanêurs: "um grande preguiçoso, um triste, e um ilustre infeliz" (p.11), "o homem das belas obras falhadas - criatura doente e excêntrica" (p.12), "o deus da impotência" (p.12), "natureza tenebrosa, a que fugidias iluminações vêm dar cor" (p.12), "falta de vergonha" (p.13), "um pouco malandrim - fingidor por temperamento" (p.14).
Paradoxalmente - afinal, também uma característica da complexidade de Cramer/Baudelaire - , Samuel é tido como inocente, meigo, nobre e puro de carácter, o que, porém, não o coíbe de iludir a confiança da aristocrática Sra. de Cosmelly, que reencontra num passeio pelos jardins do Luxemburgo, apelando à memória de uma juventude comum na província, fazendo uso de uma prédica poética de lugares-comuns num estilo romântico ultrapassado que Baudelaire repudia mas, sob a máscara de Cramer, não se coíbe de utilizar ("uma torrente de poesia romântica e banal", p.42).
Já a segunda das hipóteses, a ser correcta, é muito mais cruel: a de Fanfarlo, caracterizada pelo autor como "uma dançarina, tão estúpida quanto bela" (p.38), ter sido inspirada na "actriz de teatro" (p.38) de "carnação amulatada" (p.50) Jeanne Duval, companheira de Baudelaire durante 10 anos ("Ela, pelo seu lado, torna-se, cada dia que passa, mais gorda; tornou-se uma belezona, anafada, limpa, lustrosa e matreira, uma espécie de puta fina ministerial", p.66). Será caso para perguntar como terá Jeanne recebido esta pequena novela...
Por fim, e não querendo levar o exercício do paralelismo entre personagens e a vida de Baudelaire longe demais, reconheça-se ainda a possibilidade de Madame Sabatier, poder ter assistido a inspiração do autor na construção da personagem da Sra. de Cosmelly. ("Os seus traços, apesar de amadurecidos e empapados por alguns anos de prática, mantinham a graça profunda e decente da mulher honesta; no fundo do seu olhar brilhava ainda com intermitência o devaneio húmido da adolescente", p.17).
À Sra. de Cosmelly ("a casta esposa", p.40) irá caber a astúcia do enredo. Aparentemente embalada na poética calculista de Samuel, aceita recompensá-lo com "os restos do coração que o pérfido não quis levar" (p.44), em troca do provocado envolvimento de Cramer com a amante do esposo, a sua rival Fanfarlo, com o intuito de levar a actrizita a deixar de frequentar o seu marido, para que ela possa, como esposa magnânime e completa, porém sem a "arte do vício" (p.38), recebê-lo de novo e perdoar-lhe os desejos estouvados que o haviam levado de si ("Por que é que entre duas belezas iguais, os homens preferem, as mais das vezes, a flor que todos já respiraram, em vez da que se escondeu dos olhares dos passeantes, nas alas mais obscuras do jardim conjugal?", p.39).
O desenlace moral com que a novela nos surpreende - que nos é proporcionado pela astuta Sra. de Cosmelly tanto quanto pelo destino de tédio que está reservado a Samuel - , torna esta novela de uma perspicácia intemporal e uma aliciante leitura.

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