12.8.04

Post Scriptum #318

«"Uma noite, ao entrar com uma vela, fui surpreendido ao ouvi-lo dizer com a voz ligeiramente trémula, "Para aqui estou eu às escuras, à espera da morte." A luz estava a três palmos dos seus olhos. Esforcei-me por murmurar, "Oh, que disparate!" e debrucei-me sobre ele como que petrificado.

"Nunca vira nada que igualasse a mudança que se operou nas suas feições, e espero bem nunca mais voltar a ver. Oh, não era comoção o que eu sentia. Era fascínio. Era como se um véu se tivesse rasgado. Vi naquele rosto de marfim a expressão de um orgulho sombrio, de poder implacável, de um terror acobardado - de um intenso e irremediável desespero. Seria que estava a reviver a sua vida em cada pormenor de desejo, tentação e derrota, naquele momento supremo de consciência total? Soltou um grito sussurrado a uma imagem qualquer, a uma visão - gritou duas vezes, um grito que pouco mais era que um sopro:

"O horror! O horror!"»

Joseph Conrad, "O Coração das Trevas. Tradução de Teresa Amaro.