10.8.04

Post Scriptum #316

«"Reparem", recomeçou, erguendo um braço a partir do cotovelo, com a palma da mão virada para fora e as pernas cruzadas à frente, de tal forma que parecia um Buda a pregar, vestido à europeu e sem flor de lótus - "Reparem, nenhum de nós sentiria o mesmo. O que nos salva é a eficiência - a devoção à eficiência. Mas, na verdade, aquela gente não tinha grande valor. Não eram colonizadores; o seu governo era apenas espremer, e nada mais, suspeito eu. Eram conquistadores, e para isso apenas é necessária força bruta - nada de que nos orgulhemos, visto que é apenas um acidente resultante da fraqueza dos outros. Agarravam o que podiam só pelo prazer da posse. Apenas roubo violento, assassínio agravado pela sua grande escala, e homens que a isso se lançavam com cegueira - como é próprio daqueles que enfrentam as trevas. A conquista da terra, que significa sobretudo tirá-la àqueles que têm uma cor de pele diferente ou o nariz ligeiramente mais achatado, não é coisa bonita, se atentarmos bem nisso. O que a redime é apenas a ideia que lhe preside. Uma ideia que lhe subjaz; não um pretexto sentimental, mas uma ideia; e uma crença altruísta na ideia - algo que se pode erguer e venerar, e a que podemos oferecer um sacrifício..." (...)»

Joseph Conrad, "O Coração das Trevas". Tradução de Teresa Amaro.