Post Scriptum #315
«De todos nós, era o único que ainda "corria os mares". O pior que se podia dizer a seu respeito é que não representava a classe. Era marinheiro, mas também viandante, enquanto que a maior parte dos homens do mar levavam, se assim se pode dizer, uma vida sedentária. Têm um espírito caseiro, e a casa anda sempre com eles - o barco; e a sua terra - o mar. Todos os barcos são parecidos, e o mar é sempre o mesmo. Na imutabilidade que os rodeia, as costas estrangeiras, os rostos estrangeiros, a imensidade mutável da vida, deslizam rápidas, veladas não por um sentimento de mistério mas por uma ignorância levemente desdenhosa; pois não há nada de misterioso para um marinheiro a não ser o próprio mar, que é a amante da sua existência e tão inescrutável como o Destino. Quanto ao resto, depois do trabalho, um passeio casual ou uma farra em terra basta para lhe revelar o segredo de todo um continente que, geralmente, descobre não valer a pena conhecer. Os relatos dos marinheiros são de uma simplicidade directa, cujo significado cabe na casca de uma noz. (...)»
Joseph Conrad, "O Coração das Trevas". Tradução de Teresa Amaro.

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