O Povo É Sereno #142
Sempre gostei de passar os olhos pela chamada "literatura institucional", categoria onde sobressaem as revistas editadas pelas câmaras municipais. Apesar de vistosas e caras (pagas com os nossos impostos, pois então), raramente passam de meros veículos de propaganda política ao serviço do "chefe" (o presidente da edilidade), num exercício do mais despudorado culto da personalidade que a nossa inexperiente democracia não conseguiu ainda banir.
Ontem recebi pelo correio o terceiro número da Revista Municipal de Matosinhos, o que me permitiu pôr à prova estas minhas impressões. Está lá tudo: a capa com uma imagem futurista da nova marginal de Leça da Palmeira, a foto do Narciso Miranda página sim página sim, os textos ingenuamente autolaudatórios, a sucessão de fotolegendas de obras em curso, inaugurações, convívios e homenagens... e o indispensável editorial, assinado pelo punho do "chefe", a querer fazer-nos crer que foi mesmo ele que o escreveu, ainda por cima com o curioso título de "Pensar Matosinhos" (não sei se estão a ver a piada: Narciso, pensar...).
Mas o pior ainda estava para vir. Incauto, abri a revista e dei-me ao trabalho de ler o dito editorial (eu sei, foi estupidez), encabeçado por um belo "postal" de NM em traje de passeio. E agora não resisto a transcrever-vos a melhor passagem dessa magnífica prosa, que, estou certo, deitará por terra o mito do "autarca iliterato" e mudará para sempre a vossa opinião sobre o personagem em causa. Ora vejam:
«O Verão é, sem margem de dúvidas, uma estação do ano com algo de místico, não sendo, com toda a certeza, por acaso que aumentam o número de casos amorosos, bem como os casamentos e a taxa de natalidade.
De facto, o calor, a luz, a alegria, a praia, as férias desencadeiam todo um conjunto de atitudes que normalmente associamos a esta época. Há mais gente na rua, a alegria sente-se na cara das pessoas, sentimo-nos mais motivados para as saídas nocturnas e para a experimentação de novos desafios, preocupamo-nos mais connosco próprios e com a aparência, andamos mais alegres, enfim, um sem número de coisas que são despoletadas em nós por este clima veraneante. (...)»
Antes de tomar um merecido chuveiro de água gelada, ainda pude ler estas originais reflexões na última página, todas da autoria de NM:
«Chegamos aqui. Não foi por acaso. Há esforço, vontade e imaginação.»
«O Futuro constrói-se com a participação de todos, no exercício pleno de cidadania.»
Ainda vamos ter saudades dele...

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