30.4.04

Cicatrizes em ferida #2

PODE SER QUE SEJA DESTA

Esta semana há jackpot. Não tenho sorte nenhuma ao jogo. Então no totobola, já quase deixei de tentar. Aqui há um tempo atrás ainda tentava usar a lógica. Às segundas de manhã chegava mesmo a recortar as classificações dos jornais para as estudar em detalhe, acabando por cometer verdadeiras loucuras, à época, que era esse acto insano de apostar duplas e triplas.

Nunca ganhei nada de jeito. Jamais vivi aquele doze que supria o investimento. Quando o totoloto apareceu cedo me rendi à novidade. Cheguei mesmo a preencher dez apostas por semana na certeza de que se marcasse do 1 ao 45, em todos havia de acertar. É acertava, é claro. Só que em apostas diferentes. Umas aqui, outras além, muitos uns, poucos dois, escassas vezes aquele três que nunca paga o boletim.

Mal grado os antecedentes nunca deixei de tentar. Custa-me desistir por desistir. Mas por agora abandonei o esforço de escolher os algarismos quando se sabe, de há muito, que a sorte é filha do acaso. Por isso, a táctica que uso tem pouco a ver com ciência. Sexta-feira de manhã quando os ponteiros se encarregam de esconder o meio-dia, sento-me na mesa de canto junto ao casal de reformados e enquanto ele se entrega ao fenómeno da raspadinha, fico atentamente à espera que ela comece a falar, vendo-o à cata do milhão que cartão a cartão nunca lá está.

- O que vai ser o nosso Beto, Fredo. De ontem a 7 dias vai-nos fazer 39 e inda n'um o vi calhado à mesma mulher 2 meses que fosse. Os 3 lá em casa não dá. A tua reforma mal dá para pôr a tocar 1 cego, a minha p'ra pouco mais serve, vá-se lá viver com isto, olha 49 contos !, para que raio dá essa esmola ? Inda se me lembra do leite a 25 mil reis, do pão branco a 10 tostões e inda se recebia troco, tu vê se me falas com ele, por este andar o teu Beto fica mal quando eu me fôr, tu tás-me a ouvir, Zé Alfredo ?, tu por um acaso tás-me a ouvir ? Vê se me vais buscar mais raspas, ´tamos casados há 45, e o teu Beto, Alfredo, o teu filho Beto, Zé Fredo, de todos os que tivemos é o pior p'ra casar, se me arranjasse uma ricaça de 20 ou de 40, tanto se me fazia que tivesse a idade que tivesse, tu importas-te de prestar atenção por 10 minutos que seja que me pareces um estropiado à porta da Carmelitas ?

Mal ela atinge os doze números corro a registar o boletim. Sei que se ficar por ali é grande a tentação de apostar mais dinheiro enquanto ela não se calar e convenci-me que para o caso é igual jogar muito ou pouco. Fico-me pelas duas apostas, uma mais de números baixos, outra a atirar para os mais altos. Há quase sempre um número que ela repete ao acaso e me leva a apostar duas vezes. Considero-o o seu palpite. Já prometi a mim mesmo que se me sair um bom prémio lhes ofereço uma maquia, mais não seja o suficiente para o Beto ficar bem.

E apesar da fortuna não me avistar amiúde, o instinto feminino esse é uma certeza, pelo que ao guardar o boletim fico sempre a indagar se o que aquela mulher disse terá um sentido oculto, se haverá alguma ordem por detrás de tudo isto, e renasce em mim a esperança de que - se nada existe por acaso, - pode ser que seja desta.