29.4.04

Cicatrizes em ferida #1

PODE SER AVE OUTRA VEZ

As coisas da alma transbordam, de cada vez que apanham uma frincha para escapar. Pensei em qualquer coisa assim depois de ter escutado uma colega a consultar pelo telefone:

- Aplique Bacitracina.
A doente ouvia mal. A médica soletrou:

- “B" de bispo..., "a" de ave..., "c" de casa..., "i" de igreja..., "t" de tia..., "r" de rio... - e a acabar: - “n" de nêspera..., e "a"... espere, deixe ver... pode ser ave outra vez.

Disfarcei o embaraço. Havia-lhe traçado ali, em escassos segundos mentais, o esquisso de um perfil - católica, matriarca e rural, com fundas ligações à família - análise precipitada mas perigosamente plasmada à imagem que dela tenho formada.

"As coisas da alma transbordam, de cada vez que apanham uma frincha para escapar”, impus mais tarde a um amigo, já distante do hospital.
- És bem capaz de ter razão! - quarenta anos na mão que segura a Imperial, recém-entrado no volátil Clube dos Divorciados. - Tivesse sido comigo, já sabes como diria... - e enumera - “B" de Becas..., "A" de Ana..., "C" de Carla..., "I" de Inês...