22.3.04

Vai no Batalha #13

A noite de Domingo de muitos telespectadores foi abalada por uma notícia absolutamente chocante: a de que a pobreza extrema - ou, para usar uma expressão mais literal, a fome - atinge hoje em Portugal cerca de duzentas mil pessoas, com tendência para aumentar.

A ser verdadeira esta cifra (dúvida metódica justificada pelo facto de o país não dispor de instrumentos de avaliação quantitativa do "fenómeno"), estamos perante um dos mais perniciosos efeitos do progressivo desmantelamento do "Estado social" efectuado pelo actual Governo de direita, a coberto de uma política orçamental cega e injusta, após um período em que foram registados alguns progressos no combate à pobreza e à exclusão social.

Quem, até agora (Paulo Portas ainda não comentou), melhor expressou o cinismo do Governo sobre este assunto foi a adjunta de imprensa do ministro da Segurança Social e do Trabalho, Jacinta Oliveira, que terá dito que «se este ministério tivesse números sobre a fome em Portugal, as pessoas não passariam fome, porque seriam localizadas e alimentadas» (citação do Público). Não sei se estão a ver: brigadas de assistentes sociais com listas nominais em punho, a calcorrear semana após semana os cantos mais recônditos do país, a entregar caixas com pacotes de leite, sacos de arroz e enlatados, e os "pobrezinhos" a agradecer, comovidos, tamanha generosidade... (Terei ouvido alguém sussurrar "fascistas"?)