8.3.04

Primeiro Dia de Aulas.

Eis-me transportado para o primeiro dia de escola. Alguém me veio trazer pela mão e me deixou à porta, entregue aos cuidados da gerência do Quartzo (olá Pedro, olá Nuno, olá Rui). Este é um mundo novo para mim. Até há bem pouco tempo nem sequer suspeitava da existência de uma linguagem "html", vejam bem vocês (sim, sou um troglodita na blogosfera, e, como dizia ao Rui Amaral, ainda não cheguei a este século, encontrando-me neste preciso momento em 1998, na Expo, deslumbrado com o mito do progresso). Procurarei colocar nesta terra de estranhos minerais (onde não sei se sou quartzo, se feldspato, se mica) as minhas digressões, devaneios, delírios, deslumbramentos, perplexidades, encantamentos, indignações e afins. Tudo aquilo a que todos temos direito. Haver por aí alguém interessado em lê-las é o que me traz verdadeiramente espantado. Vou tentar deixar por aqui, de vez em quando, traduções inéditas dos poetas de que mais gosto (e que ainda não estejam traduzidos em português, senão a coisa perde a piada). O meu ritmo de tradução, no entanto, fica muito aquém do frenesi criativo do Manuel Resende, em cujas belíssimas traduções venho lendo os modernos poetas gregos, e não traduzo, para desgraça minha, do grego (nem do alemão, nem do mandarim, nem do javanês, nem do moldavo, nem do letão, nem do suaíle, e por aí fora). Deixo isso para os que sabem. E aqui fica, para o Manuel Resende, um poema de Eugénio de Andrade sobre Kavafis, com votos de que ele regresse rapidamente do Pólo Norte para retomar os seus trabalhos de canteiro nesta granítica e povoada paisagem.


KAVAFIS, NOS ANOS DISTANTES DE 1903

Nenhum tão solitário mesmo quando
acordava com os olhos do amigo nos seus olhos
como este grego que nos versos se atrevia
a falar do que tanto se calava
ou só obliquamente referia -
nenhum tão solitário e tão atento
ao rumor do desejo e das ruas de Alexandria.

Eugénio de Andrade, 1964.