23.3.04

Post Scriptum # 181


Alguém se lembra de François-René de Chateaubriand (1768-1848)? Não estou a falar, é claro, daquele prato de carne semi-crua parecido com o rosbife, mas desse enorme escritor que deu à luz o monumental Génie du Christianisme (1802), inventor do romance-poema e autor daquela que é talvez a melhor (e maior) autobiografia de todos os tempos, as Mémoires d'outre-tombe (1848-1850). Chateaubriand criou toda uma mitologia da paisagem, do tempo e do espaço, onde foram beber praticamente todos os escritores românticos, portugueses e brasileiros inclusive. Em 1801 fez publicar um longo poema em prosa, Atala, que contém algumas descrições das florestas da Flórida que permanecem ainda hoje insuperáveis no que toca ao colorido e ao exotismo - um verdadeiro jardim das delícias. Dei de caras com esta passagem de enorme potencial cinematográfico (não mostrem ao Mel Gibson, mostrem ao Peter Jakson). Chactas, guerreiro índio altamente civilizado, pois cita de cor Homero e Ossian, foi capturado pela tribo dos selvagens Muscogulges, que não têm outra ideia na cabeça senão executá-lo. O herói, amarrado a um tronco, não desanima:

Cada um inventa um suplício: um propõe-se arrancar-me a pele, o outro queimar-me os olhos com achas em brasa. Dou início à minha canção de morte.
«Não tenho medo nenhum aos tormentos: sou corajoso, ó Muscogulges, desafio-vos! eu desprezo-vos mais do que se fôsseis mulheres. O meu pai Outalissi, filho de Miscou, bebeu nos crânios dos vossos mais célebres guerreiros; não arrancareis um suspiro ao meu coração.»
Estimulado pela minha canção, um guerreiro trespassa-me o braço com uma flecha; digo-lhe: «Irmão, eu te agradeço».



Atala/ René. Paris, Garnier-Flammarion, 1964, p.92



NOTA: ficam a saber que podem agora encomendar o vosso suculento Chateaubriand através da "web", pela módica quantia de $100.49 no Bacchus Cellars. Em alternativa, caso não sejam adeptos de carne mal passada, podem ler as versões integrais das melhores obras de Chateaubriand aqui. Boa degustação.