20.3.04

Post Scriptum # 178


"Pêssego", um suculento poema de D. H. Lawrence (1885-1930), um dos maiores poetas de língua inglesa do século XX, embora seja conhecido sobretudo pelos seus romances (e pelas polémicas a que deram azo). É do livro Birds, beasts and flowers, de 1923. Cresce-me a água na boca de todas as vezes que o leio (terei algum problema grave?). A percepção que Lawrence tinha do mundo permanece um mistério; é como se fosse de outra ordem, mas não da ordem dos opiácios ou outras substâncias ilícitas potenciadoras de estados de consciência alterados. É enorme a sua capacidade para criar imagens desconcertantes, sensuais, sumarentas (e eróticas). Embora não pareça, Lawrence é um poeta metafísico. Apenas acontece que ele interroga os grandes temas metafísicos nas pequenas criaturas, nos seres do mundo vegetal e mineral, nos níveis mais rasteiros da criação: nos frutos, nas àrvores, nas flores, nos animais, e não a partir de uma situação trágica, de uma enunciação enfática. Não interroga Deus do cimo de um penhasco, como faziam os vates do romantismo, mas com a cara colada ao chão, à escuta dos mais ínfimos sinais, das mais débeis vibrações da vida. Não sei se este "Peach" já alguma vez foi traduzido para português. O Herberto Helder traduziu (mudou, como ele gosta) o "Figs" (Figos). Há uma antologia de poemas de D. H. Lawrence traduzidos por Maria de Lourdes Guimarães: "Os Animais Evangélicos e outros Poemas" (Lisboa: Relógio D'Água, 1994). Estão lá alguns poemas de Birds, beasts and flowers, mas não este "Peach". Bom apetite.


PÊSSEGO

Gostavas de me atirar com uma pedra?
Toma, fica com tudo o que resta do meu pêssego.

Vermelhosangue, profundo;
Deus sabe como aconteceu.
Porção de carne rendida.

Enrugado de segredos
e duro na intenção de os guardar.

Porquê, da prateada flor do pessegueiro,
desse prateado, frágil copo de vinho num pequeno pé
este rotundo, gotejante, pesado glóbulo?

Estou a pensar, é claro, no pêssego antes de o ter comido.

Porquê tão aveludado, porquê tão voluptuosamente pesado?
Porquê suspenso com tão indecoroso peso?
Porquê tão amolgado?

Porquê a fenda?
Porquê a encantadora, bivalve redondeza?

Porquê as ondas pela esfera abaixo?
Porquê a sugestão de incisão?

Porque não era o meu pêssego redondo e polido como uma
bola de bilhar?
Teria sido se o tivesse feito o homem.
Embora agora o tenha comido.

Mas não era redondo e polido como uma bola de bilhar;
e porque o digo, gostavas de me atirar
com alguma coisa.
Toma, podes ficar com o meu pêssego pedra.

San Gervasio.

D. H. Lawrence - Birds, beasts and flowers.
Santa Rosa, Black Sparrow Press, 2001.