6.10.03

Post Scriptum #26

Gostava de partilhar convosco um excerto do livro “O Rotters’ Club” (“The Rotters’ Club”), de Jonathan Coe, um dos mais interessantes escritores britânicos da actualidade, e que me tocou de forma especial. Talvez volte a falar-vos deste livro (editado entre nós pela Asa); há outros trechos igualmente inspirados e que vale a pena respigar. Para já, ficareis a conhecer Benjamin, um dos protagonistas do romance, um rapaz inglês de 17 anos, que vive em Birmingham, cujas paixões são a música e a escrita e que é tendencialmente uma espécie de “alter-ego” do autor. A cena passa-se no Natal de 1977, com Benjamin a ver um programa cómico na BBC, curiosamente aquele que ainda hoje foi o mais visto de sempre da televisão britânica. Ora então aí vai:

“Aconteceu a meio do ‘The Morecambe and Wise Show’. Benjamin estava sentado no sofá, com Acorn – agora um gato velho e gordo – esparramado no seu colo. O avô sentara-se numa poltrona à sua esquerda. Morecambe e Wise estavam a fazer um sketch com Elton John. Ernie pretendia fazer um número musical em que Eric cantava a melodia principal. A certa altura, Ernie juntava uma melodia secundária, enquanto que Elton John os acompanhava ao piano. Porém, de cada vez que ensaiavam, as coisas saíam mal. Eric cantava os primeiros compassos, Ernie entrava com a melodia secundária e, segundos depois, Eric deixava de cantar a melodia principal e passava a cantar a mesma melodia que Ernie. Era um número já bastante visto, mas o timing perfeito dos actores, a comunicação e a empatia, absolutamente eléctricas, entre aqueles dois homens de meia idade que, por essa altura, eram os comediantes mais queridos da Grã-Bretanha, transformavam-no num milagre de imparável hilaridade. De súbito, enquanto assistia fascinado ao programa e os ronrons de Acorn espalhavam pelo seu corpo lentas vibrações de satisfação, Benjamin teve uma visão fugaz: ocorreu-lhe que ele era apenas uma pessoa, e que a sua família era apenas uma família, entre milhões de pessoas e milhões de famílias em todo o país, todas sentadas diante dos seus televisores, todas seguindo atentamente o número dos dois comediantes, em Birmingham e Manchester e Liverpool e Bristol e Durham e Portsmouth e Newcastle e Glasgow e Brighton e Sheffield e Cardiff e Stirling e Oxford e Carlisle e em todas as outras cidades, vilas e aldeias, todas rindo, todas rindo da mesma graça, e Benjamin sentiu uma incrível sensação de... unidade, essa era a única palavra que lhe ocorria, a sensação de que toda a nação se unira por breves, fugidios momentos, no divino acto do riso, e, quando olhou para o rosto do avô, convulsionado pela alegria, a imagem perfeita de um êxtase de gargalhadas, lembrou-se do rosto de Francis Piper, quando o poeta fora à escola ler os seus poemas, e de como esse rosto lhe parecera como que o rosto de Deus, e, nesse preciso instante, Benjamin deu consigo a pensar que talvez as suas ambições estivessem todas erradas – o seu desejo de ser um escritor, o seu desejo de se tornar um compositor – e que fazer rir os outros era afinal a mais sublime, a mais sagrada das vocações, e perguntou-se se não deveria antes pensar em tornar-se um grande comediante ou um grande autor de textos cómicos, mas depois a sensação passou e o sketch acabou e um chato de um cançonetista qualquer sucedeu aos actores e Benjamin deu-se conta de que, na realidade, ele não passava de um adolescente igual a todos os outros adolescentes, um adolescente vulgar numa família vulgar; mesmo o rosto do avô tinha um ar perfeitamente vulgar e Benjamin reparou pela primeira vez que Lois não se rira com eles, e aquela sensação de uma clareza ofuscante tinha-se evaporado e, uma vez mais, tudo na sua vida parecia inquieto, complexo, incerto."