9.10.03

O Silêncio é de Ouro #3

NOVAS DA ILHA DE ROBINSON

Lembram-se daquele texto que eu escrevi sobre os discos que levaria para a ilha deserta? Pois é, isso é tudo muito bonito, mas o problema, meus amigos, é que eu já lá estou. E devo dizer-vos, com conhecimento de causa: isto aqui é uma seca monumental!
É que a ilha é mesmo deserta, deserta mesmo, não sei se estão a ver. Não há nada. Apenas uns penedos ao alto, uns exemplares arborícolas pseudo-luxuriantes, uns passarocos feios e ruidosos que me acordam a desoras, tudo lamentavelmente desprovido do dom da fala. E pessoas, nem vê-las, está claro, nem Sextas-Feiras nem Segundas-Feiras nem Domingos nem Feriados, nem uma miserável figurinha de gente para amostra. Qual Paraíso, qual carapuça! Sinto-me a leste do Paraíso mas é, um Robinson triste e grunho, que de tanto olhar para pedras, caminha a passos largos para ter uma delas no lugar dos miolos.
E os discos, perguntarão vocês, aqueles dez disquinhos mágicos que eu, com todo o carinho, levei na minha bagagem? Têm-me feito companhia, é certo, mas eu já não sei o que hei-de-fazer à vida. Porque diabo trouxe eu aqueles discos e não outros? Já os ouvi, reouvi, escutei, reescutei e vomitei tantas vezes que as canções já se amalgamaram numa sopa de acordes dissonantes, numa babel de refrões que, ao lado delas, até o gralhar das aves canoras daqui me parece calmo e pacífico.
Porra, pá, e depois penso naquelas músicas de que tenho saudades. O que me deu na cabeça para deixar o "Blue Lines", dos Massive Attack, em casa? Outro galo me cantaria se eu agora tivesse a possibilidade de pôr a tocar um dos discos da Penguin Cafe Orchestra. E, afinal, que bicho me terá atacado a ponto de me levar a cometer o imperdoável crime de não trazer comigo o "Is a Woman", dos Lambchop? Para afogar esse pecado, nada melhor seria agora do que um mergulho nas ondas sonoras do "Loveless", dos My Bloody Valentine. Mas nada disso eu tenho. Apenas dez discos curtos e pequeninos, já rachados de tão gastos (apesar de serem CD's), que me pareciam o voo de um açor à partida mas não passam de uma cela escura e sombria à chegada.
Querem um conselho de amigo? Se quiserem mesmo ir para uma ilha deserta, não levem só dez discos. Não tarda nada sentem-se emparedados. Esqueçam o funcionário da alfândega, essa gente não costuma primar pela sagacidade. No controlo da fronteira, mostrem obedientemente os dez discos consentidos mas reservem lugar para mais vinte ou trinta no fundo falso da vossa mala. Vão ver que não se arrependem. Mas mesmo este acrescento não será suficiente. Não é remédio santo para o tédio nem para a infelicidade. Eu não tenho nada contra ilhas desertas, notem bem. Elas até costumam ser bonitas, com árvores exóticas, um mar transparente como uma boa alma e vistas de cortar a respiração. Mas antes de decidirem viajar para o Paraíso, não se esqueçam de ir bem acompanhados. "D'you know what I mean?".