8.10.03

O Povo É Sereno #8

Recebemos do nosso prezado leitor e colaborador Manuel Resende a seguinte crónica:

«Os pessimistas da evolução económica não devem ter ficado muito satisfeitos com os sinais de recuperação nacional, confirmados pela subida das vendas a retalho, cerca de cinco por cento, um recorde quando comparado com a média da zona euro, e com a confirmação do forte crescimento americano e a inversão da estagnação na Europa.» Luís Delgado, "Diário de Notícias", 7 de Outubro de 2003.

Dia após dia, semana após semana, Luís Delgado fulmina no "Diário de Notícias" os "pessimistas" que não querem ver a recuperação económica ao virar da esquina. Voltou hoje (7 de Outubro) à carga. Curioso argumento: os "pessimistas", como ele diz, são ao mesmo tempo uns zarolhos, desconectados da realidade, e, claro, catastrofistas de esquerda.

Uma pessoa como deve ser, uma pessoa às direitas, tem de ser optimista, claro. Sabendo-se como se sabe que a previsão económica é tão falheira, estranha-se que se imponha jugo tão pesado aos partidários da direita. Nem que chovam picaretas, há que manter a confiança das massas.

É pena que Luís Delgado tenha um conhecimento tão peculiar da realidade, pois, caso contrário, não declararia que nos EUA se assiste a um "forte crescimento".

Na verdade, historicamente, o PIB americano tem apresentado, em média, nos períodos pós-recessão, taxas de crescimento de 8,6%. Neste momento, estima­-se que o PIB americano possa (digo bem, possa) crescer a uns 3,5% ou 4% no resto do ano: uma miséria.

Também grande barulho fez na sexta-feira da semana passada a estatística do emprego
divulgada pelo Bureau of Labor Statistics: houve um aumento de 57 000 postos de trabalho não agrícolas, segundo dados sazonalmente corrigidos; sazonalmente corrigidos quer dizer que os números brutos são alterados para descontar as evoluções pacheco perreira (perdão, abruptas), resultantes das flutuações sazonais (no fim do verão costuma haver contratação de novos trabalhadores por períodos curtos). Tanto bastou para que a bolsa de Nova Iorque desse um pulo esquizofrénico de contente.

Ora, mesmo este número "favorável" não é assim tão favorável como isso.

Primeiro, houve um aumento substancial dos postos de trabalho temporários, o que quer dizer que, mesmo na recuperação, os patrões não estão muito seguros do futuro.

Segundo, a indústria continuou a perder postos de trabalho (mais 29 000), o que é significativo, não só porque se está em recuperação, mas também porque a cotação do dólar tem descido, o que em princípio favoreceria as exportações americanas e desfavoreceira as importações (embora claro a China tenha a sua moeda ligada à americana).

Terceiro, ninguém reparou, mas ao mesmo tempo o BLS na sua última revisão para os números de Março, disse o seguinte:

«Os quadros disponíveis indicam que, para o mês de referência de Março de 2003, a estimativa do emprego total não agrícola deve ser reduzida em cerca 145 000 postos de trabalho, isto é, um décimo de ponto percentual.»

Que tal?

O que é certo é que, apesar do ligeiro crescimento do número de postos de trabalho não agrícolas, a taxa oficial de desemprego nos EUA se manteve nos 6,1% (e sabe-se como nos EUA as estatísticas do desemprego são enviezadas). Não está mal em matéria de crescimento económico!

Outros vários factores deveriam moderar o optimismo dos optimistas: a recente recuperação americana viveu muito das encomendas militares e do défice público (guerra do Iraque, obrigado), das medidas de abaixamento de impostos adoptadas por Bush e da política financeira deliberadamente facilitista do banco central, apostado em reanimar a Bolsa.

Apesar de todos estes empurrões, o menos que se pode dizer é que a recuperação é timorata. E mais, viciada na dívida pública e sobretudo privada, que atinge 35 mil milhões de dólares, mais de 3 vezes o PIB.

Além disso, a desindustrialização dos EUA está criar gravíssimos problemas. Dirão alguns que a sociedade americana entrou na era pós-industrial (Meu Deus, quanto se abusa dos pós nestes tempos!) e já não precisa de indústria: mas o défice das contas correntes com o exterior é colossal e insustentável. Assiste-se, por outro lado, ao início da deslocalização de certos ramos dos serviços.

Nenhuma sociedade consegue sobreviver a comprar fora a maior parte do que consome. E a China espreita, não é, José Manuel Fernandes?