28.9.03

O Povo É Sereno #4

Eu bem digo que o Freitas do Amaral é um "perigoso guerrilheiro da extrema-esquerda". Reparem-me só neste excerto de uma entrevista que ele deu à revista... "Nova Gente" (abstraiam-se do título, a entrevista até está interessante e uns furos acima daquilo que é normal na publicação). Falava-se da última peça do político-dramaturgo que, como se sabe, é dedicada a Viriato e na qual surgem, como não podia deixar de ser e à boa maneira romana ou "romanizada", muitas conspirações e facadas nas costas. Fazem-lhe então, a dada altura, a pergunta difícil de saber donde vêm as traições políticas hoje em dia. E ele respondeu:
"Diria que há uma traição colectiva aos ideais do 25 de Abril [sim, leram bem, ao 25 de Abril]. Não me refiro ao comunismo ou ao socialismo [uff!] mas nessa época havia de facto um ideal sincero, além da democracia e da descolonização [sim, leram bem, ele disse descolonização!!!], que era desenvolver o País de uma forma socialmente justa e equilibrada". E concluiu: "E a verdade é que vemos os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres".
Pois é. Depois disto, sábias só mesmo as palavras do inconsolável Basílio Horta, que, ao recordar as peripécias do famoso Congresso de 75 do CDS, desabafou: "Ai que saudades do Diogo Freitas do Amaral desse tempo!". O que lhes vale é o Amaro da Costa que, como defunto e bem defunto está desde 1980, pode agora ficar cristalizado em qualquer estatuto que se lhe queira colar, sobretudo agora que o eternizaram num busto onde não lhe faltam os óculos e nem sequer aquele inconfundível ar de seminarista arguto. Se o homem fosse vivo, sabe-se lá de que lado estaria: se no centrismo moderado de Freitas do Amaral ou na neo-direita de Manuel Monteiro e Paulo Portas. "Who knows?". Tenho dúvidas, sinceramente: secalhar a estas horas também andaria em programas de televisão a verberar George W. Bush e a hegemonia norte-americana. É que o Mundo dá muita volta, não sei se sabem...