30.9.03

Ilha dos Amores #1

Elia Kazan foi sempre um homem complexo, dentro e fora dos estúdios de cinema, e dono de uma obra tão fascinante quanto intemporal. Alguns dos melhores filmes de sempre têm a sua assinatura: "Um Eléctrico Chamado Desejo", "A Leste do Paraíso", "Esplendor na Relva", "Há Lodo no Cais"... No início dos anos 50, em plena "caça às bruxas", cometeu a perfídia de denunciar ex-colegas do Partido Comunista aos algozes do fascismo americano (sim, também o houve), gesto que, compreensivelmente, jamais se lhe descolou do nome. A este respeito, nunca consegui esquecer as imagens de um Kazan envelhecido e trémulo, a subir ao palco de uma recente cerimónia dos Óscares de Hollywood, sob o aplauso reverente de alguns, de pé na plateia, e o silêncio crítico de outros, ostensivamente sentados nas poltronas. O ambiente na sala era tão tenso que não consegui evitar sentir compaixão pela figura paradoxal daquele frágil gigante, cineasta sublime e homem trágico. Com a sua morte, ocorrida no domingo passado, os ódios serão apaziguados e a sua obra reconhecida como uma das mais influentes da história do cinema.