23.9.03

Fauna & Flora #1

JOSÉ MOURINHO/FERNANDO SANTOS – um estudo comparado

José Mourinho é treinador do FC Porto. Fernando Santos é treinador do Sporting. José Mourinho ganhou na época passada tudo o que havia para ganhar. Fernando Santos não teve a mesma sorte lá na Grécia, mas decerto ainda se lembrará de há uns anos ter sido campeão pelo FC Porto. No entanto, a verdade é que nenhum deles parece lá muito bem disposto. José Mourinho aparece sempre de cara fechada e palavras secas, com ar de quem está a passar por um aborrecimento monumental. Fernando Santos não lhe fica atrás, surgindo invariavelmente de olhar baixo e expressão franzida, meio derrotado por uma chatice que só ele percebe. Nenhum deles usa bigode, embora ambos sejam treinadores de futebol. José Mourinho nunca usou bigode, ao que julgo saber, mas faz gala em andar às vezes três ou quatro dias sem fazer a barba; provavelmente só para lhe dar um aspecto ainda mais aborrecido. Fernando Santos também nunca usou bigode, se não me falha a memória, mas já usou barba; no tempo em que treinava o Estoril e o Estrela da Amadora, lembram-se? Portanto, sem bigode, José Mourinho e Fernando Santos formam um lindo par, eu diria mesmo mais, uma bela dupla. Ou melhor, uma má dupla: a dupla dos mal-dispostos. José Mourinho e Fernando Santos andam mal-dispostos. Mas não é só de andarem mal-dispostos uma manhã para depois ficarem bem-dispostos à tarde e eufóricos à noite ou de serem mal-dispostos apenas com quem lhes faz uma pergunta à qual não desejam responder para depois serem todos sorrisos com o adepto que lhes pede um autógrafo. Não. Eles andam sempre mal-dispostos e estão mal-dispostos com toda a gente. Eles não andam mal-dispostos, eles são uns mal-dispostos, são a verdadeira má-disposição em pessoa. E porque serão eles uns mal-dispostos? Alguém lhes fez mal? A vida corre-lhes mal? Que diabo, José Mourinho não tem do que se queixar. No ano passado, ganhou o campeonato, a Taça de Portugal e a Taça UEFA. Pelos padrões habituais, nada mau, não vos parece? Mas dar-se-á o caso de ele ainda não estar satisfeito? Será isso que o põe mal-disposto? Achará ele porventura que o céu é o limite? Não contente por ter ganho o campeonato, a Taça de Portugal e a Taça UEFA em jogos para gente normal, deve também querer ganhá-los em competições para anjos, alienígenas e super-homens. E Fernando Santos? Porque andará ele sempre tão murcho, mesmo quando ganha? Ainda há poucos anos ele foi campeão pelo FC Porto (é verdade que falhou o “bi-tri” mas conseguiu o “penta”) e mais recentemente conseguiu também alguns sucessos na sua passagem pela Grécia. Não lhe faltariam, por isso, razões para sorrir. Mas não: o homem insiste naquele olhar de sono, naquela expressão inconsolável, como se a sua carreira, mau grado as aparências, não fosse mais do que uma sucessão de empates e derrotas sem sentido, limpezas de balneário e chicotadas psicológicas mal resolvidas. Ele já ganhou, há até provas disso, fotografias e recortes de jornal que não me deixam mentir, mas não se nota nada. Fernando Santos há-de ser sempre um vencedor com cara de derrotado. José Mourinho, esse, parece estar de candeias às avessas com o mundo. Das duas, uma: ou o resto da Humanidade lhe deve mesmo dinheiro, ou o homem é um incompreendido, dotado de uma sabedoria e de uma clarividência tais que nenhum leigo da bola será capaz de alcançar. A mim, não restam dúvidas de que José Mourinho é mesmo um adiantado mental. De outra forma não se compreenderia o ar entediado como arremessa monocordicamente palavras lacónicas, na típica atitude do iluminado que vai desperdiçando pérolas à ganância de porcos esfomeados. Ele só fala quando solicitado e mesmo assim fá-lo com parcimónia, não vá alguém fazer um embrulho com os seus doutos ensinamentos e oferecê-los, de laçarote e bandeja, à concorrência. Que, em boa verdade, não existe, já se vê. Porque Mourinho é o melhor e, como tal, não tem verdadeiros concorrentes. Fernando Santos também está mal com a vida. É ele sozinho contra o mundo e ninguém o ajuda. Não porque o mundo seja esse aglomerado de bestas condenado a não perceber patavina de tácticas, como é para José Mourinho, mas porque simplesmente o acordou. É isso mesmo. Fernando Santos está chateado porque o acordaram. De bom grado teria permanecido mais algum tempo na cama mas alguém fez soar a campainha do despertador antes do tempo. E ele não tem outro remédio senão aparecer em público de olhos pisados e rosto encardido, amaldiçoando a alma que o arrancou aos lençóis só para lhe pedir umas dicas sobre a constituição da equipa para o próximo jogo. Ninguém tem pena dele? Parece que não, porque o homem já é treinador há um bom punhado de anos e continuam a fazer-lhe o mesmo. E insistem em pô-lo a falar quando o que ele queria era suspirar, espreguiçar-se e ressonar. E teimam em pô-lo a dissertar sobre futebol quando o que ele queria era adormecer e só acordar a escassos minutos de a sua equipa subir para o relvado. Fernando Santos é um visionário. Deve acreditar que algures num sonho qualquer encontrará a táctica infalível que deixará ajoelhado até o mais aguerrido dos adversários. Deixem-no fazer a experiência! Deixem-no dormir, caramba!
Numa disputa entre um homem que sabe tudo e um outro que ainda não dormiu tudo, a tripla é o melhor prognóstico. Mourinho tem o génio do seu lado (nem ele admitirá outra coisa) mas Fernando Santos tem de certeza um pacto com as forças secretas que nos modelam o ânimo e o querer durante o sono. E o que pode sair daqui é tudo menos previsível. FC Porto e Sporting – dois gigantes que são bem capazes de empatar neste braço-de-ferro. Um empate, pois. É da maneira que, para bem da estabilidade, tanto um como outro hão-de continuar forçosamente mal-dispostos.